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Guimarães chega a Paris com reconhecimento internacional renovado e um estatuto confirmado: é Capital Verde Europeia este ano de 2026. Mais do que distinção simbólica, o município assume o título como responsabilidade política e transformação concreta. O presidente da câmara municipal, Ricardo Araújo, defende que o desafio não é apenas ambiental, mas sobretudo social: fazer da sustentabilidade um motor real de qualidade de vida.
Num tempo em que as cidades deixaram de ser cenário para passarem a ser protagonistas da crise climática, Guimarães apresenta-se em Paris com uma dupla legitimidade: a do reconhecimento internacional e a de um caminho ainda em curso. Este ano, a cidade é Capital Verde Europeia mas, para o presidente da Câmara, esse título é menos uma meta do que um compromisso exigente.
“Em primeiro lugar, é de facto também um privilégio para Guimarães, resultado de um trabalho que tem vindo a ser feito ao longo das últimas décadas, ser reconhecida pelo terceiro ano consecutivo”, afirma Ricardo Araújo, referindo-se à distinção do Projeto de Divulgação de Carbono (CDP). “Recebemos este reconhecimento juntamente com cerca de 120 cidades, num universo de cerca de 700, e isso é um orgulho neste caminho que Guimarães tem vindo a trilhar.”
Mas o tom rapidamente se afasta da celebração. “Capital Verde Europeia e esta distinção não são um ponto de partida. Esse ponto de partida já se iniciou há um tempo atrás, mas também não é de todo um ponto de chegada”, sublinha. E fixa a ideia central: “É um ponto intermédio, porque isto é acima de tudo uma responsabilidade com o presente e com o futuro.”
Essa responsabilidade ganha densidade quando colocada no contexto histórico da cidade. “Estamos a falar de um concelho que teve uma fortíssima tradição industrial, com sectores como o têxtil e o calçado, que naturalmente traziam uma pegada ecológica muito relevante.” A transformação das últimas duas décadas, na qualidade dos rios, do ar, do espaço público, é, por isso, apresentada como um processo de reconversão profunda.
Ainda assim, o objectivo não se esgota no ambiente. “Tenho dito e repetido que quero que Guimarães seja a capital verde europeia, mas se transforme na capital da qualidade de vida na Europa”, afirma. E reforça: “O ser capital verde europeia tem que estar associado à qualidade de vida das pessoas.”
A transparência como práticaUma das dimensões mais valorizadas internacionalmente é a transparência ambiental. Mas, no discurso do autarca, essa transparência só ganha sentido quando se materializa no dia-a-dia.
“Nós temos um conjunto de indicadores que estamos a monitorizar permanentemente e que queremos que estejam acessíveis a cada momento para qualquer cidadão poder verificá-lo”, explica. E concretiza: “Isto tanto se aplica na qualidade do ar, como na qualidade da água, como na gestão das nossas bacias de retenção, na gestão do estacionamento, do tráfego urbano.”
A cidade, acrescenta, tem de ser pensada como sistema inteligente, apoiado em dados e tecnologia: “Temos que utilizar as ferramentas de inteligência artificial e as ferramentas tecnológicas que temos à disposição para podermos ter uma cidade gerida de forma mais inteligente, através da recolha de dados permanente, do seu tratamento e da sua disponibilização.”
Mas a ambição não é técnica é social. “Estes dados têm que servir a decisão política, mas também o próprio cidadão, para que, no seu dia-a-dia, possa fazer melhores opções.” E dá exemplos simples: “Quando as pessoas têm que estacionar um carro, não têm que andar à procura do parque. Quando utilizam o transporte público, este tem que ser cómodo, flexível, simples.”
A advertência surge clara: “A capital verde europeia não pode ser uma capital verde das elites políticas e académicas. Eu quero que isto seja apropriado pelos nossos cidadãos.”
Entre a pedagogia e a transformação físicaO ano de 2026 é pensado em duas escalas complementares. A primeira é a da consciência. “Quero que este ano sirva para consciencializar cada vez mais a nossa população para a importância destas políticas”, afirma, sublinhando o papel da educação ambiental e do envolvimento das escolas. “A qualidade de vida do nosso futuro está intrinsecamente ligada à adoção de políticas que defendam o ambiente.”
A segunda escala é a do território. “Queremos transformar o território e aproveitar este ano para o fazer”, diz. Entre os projectos: duplicar as ecovias, reabilitar extensas zonas ribeirinhas, criar novos parques urbanos, plantar árvores.
“Guimarães é atravessada por três rios: o Selho, o Ave e o Vizela, e queremos acelerar a reabilitação dessas zonas”, explica. O território deixa de ser apenas espaço físico e passa a ser instrumento de política climática e de qualidade de vida.
E depois, a mobilidade, talvez o campo mais sensível da transformação urbana. “Nós vamos operar uma revolução na mobilidade em Guimarães”, afirma. Mas impõe uma condição decisiva: “Esta revolução tem que ser não contra as pessoas, mas a favor das pessoas.”
Os limites da mudança“Este processo tem que ser partilhado e apropriado pelos cidadãos”, insiste. E admite as tensões: “Quando reduzimos o transporte individual ou a circulação automóvel, não podemos fazer simplesmente por uma vontade do presidente ou por uma decisão académica.”
A mudança, diz, exige equilíbrio entre ambiente, economia e vida dia-a-dia. “Temos de perceber a vida normal das pessoas: o comércio, as escolas, os pais, os filhos, isto não pode ser contra uma coisa ou contra outra.”
O mesmo raciocínio aplica-se à economia. “Esta transição ecológica não pode significar uma desvantagem competitiva para as empresas”, alerta. E acrescenta: “As empresas que cumprem, que têm responsabilidade ambiental, não podem ser prejudicadas quando competem com outras que não cumprem, nomeadamente fora do espaço europeu.”
Cidades no centro do presenteEm Paris, a transformação urbana é visível: menos espaço para o automóvel, mais ciclovias, mais espaço público. Para Ricardo Araújo, esse é o sinal do tempo. “Os fenómenos a que temos assistido são uma evidência de que as alterações climáticas já não são futuro, são presente”, afirma. E a resposta, defende, tem de ser urbana.
“Temos que repensar as cidades e o espaço público, olhar para a forma como organizamos e projectamos a cidade para usufruto dos cidadãos, dos jovens e das crianças.” Isso implica, inevitavelmente, reduzir emissões e mudar a mobilidade. “Estamos a fazer um fortíssimo investimento: a frota de transporte público de passageiros é hoje 100% elétrica.”
Mas, mais uma vez, a chave está no equilíbrio. “Retirar o transporte individual tem que ter alternativa. As pessoas têm que poder fazer a sua vida de forma normal e, de preferência, mais cómoda, mais simples e mais barata.”
No final, a ideia regressa ao essencial. “Se nos limitarmos a apregoar conceitos sem que isso se traduza numa melhoria da qualidade de vida das pessoas, não estamos a dar um bom contributo.”
A Cimeira Mundial da Energia Nuclear realizou-se em Paris na semana passada, reunindo chefes de Estado, responsáveis de organizações internacionais, instituições financeiras e líderes da indústria nuclear para discutir o papel da energia nuclear no futuro energético mundial. A reunião teve como principal objectivo reforçar a cooperação internacional e promover o desenvolvimento seguro e sustentável da energia nuclear civil, num momento em que a procura global de electricidade cresce e aumenta a pressão para reduzir as emissões de carbono. Pedro Sampaio Nunes, ex-secretário de Estado da Ciência e Inovação do governo português e antigo director de novas tecnologias de energia na Comissão Europeia, defende que a energia nuclear é a melhor solução e explica porquê.
Por que motivo a energia nuclear volta a estar no cento do debate internacional?
A energia nuclear está a voltar ao debate nacional porque sempre foi e continua a ser o tipo de energia que resolve os problemas com os quais a humanidade está confrontada. Por ser a energia mais densa, tem maior densidade energética, não sofre de intermitência e permite, de uma forma limpa, produzir energia fiável, disponível 24 horas por dia. Estes são os grandes trunfos da energia nuclear.
Para lhe dar uma ideia, para produzir a mesma unidade de energia é necessário 20 vezes mais materiais e recursos físicos. Estamos a falar de betão, aço, cobre, vidro, de todos os tipos de materiais. Alguns deles até críticos e difíceis de obter, como as terras raras, que neste momento estão completamente controlados pela China. Com energia renovável, precisa-se de 20 vezes mais do que com energia nuclear. Por isso, em termos de densidade energética, esta tem um valor extraordinário. Com muito pouco combustível, consegue produzir muita energia, à medida das necessidades, e não à medida da meteorologia.
O objectivo é, até 2050, atingir a neutralidade carbónica e responder à procura global de electricidade. Num contexto actual, a energia nuclear é a melhor solução?
É a melhor solução. Sempre foi. No passado, a energia nuclear foi confrontada com uma campanha muito negativa. Primeiro, uma campanha intensa feita por razões geopolíticas, na altura da Guerra Fria, porque a União Soviética não queria que o Ocidente ganhasse independência através da energia nuclear, embora eles próprios a estivessem a desenvolver, criando uma campanha política contra a energia nuclear. Depois houve o acidente de Chernobyl, que também afectou gravemente a credibilidade e a percepção de segurança desta forma de energia. Houve ainda Three Mile Island e o acidente de Fukushima, mais recentemente, quando estávamos novamente numa época de renascimento nuclear.
No entanto, todos estes acidentes tiveram pouquíssimas vítimas. Apenas Chernobyl registou vítimas mortais, número que é infinitamente inferior ao que ocorre todos os anos, por exemplo, na produção de energia eléctrica a partir do carvão ou de outras fontes fósseis.
Mas também se sabe que, no processo de desmantelamento das centrais nucleares, todo aquele material demora anos até desaparecer…
Isso acontece com qualquer actividade industrial perigosa. No caso da energia nuclear, de forma muito mais controlada, os resíduos estão monitorizados e o desmantelamento é obrigatório. Há actualmente desenvolvimentos muito interessantes em novas tecnologias, como os pequenos reactores modulares.
Na cimeira falou-se do financiamento de novos projectos nucleares, incluindo os reactores tradicionais. Qual é a importância destes reactores?
Os pequenos reactores modulares existem na frota dos porta-aviões, nos submarinos nucleares e nos quebra-gelos russos, e existem também adaptados para a produção de energia civil russo e existe um novo reator deste tipo na China, no deserto de Gobi. Estes reatores são extremamente promissores e julgo totalmente possível que, nos próximos anos, apareçam pequenos reactores a produzir energia eléctrica a um valor competitivo no mercado, cerca de 30 euros por MWh.
Isso vai pôr em questão o investimento em energia eólica. Não fará já sentido económico substituir parques eólicos cuja substituição será mais cara do que esta solução. Além disso, os parques eólicos e centrais solares têm uma vida útil muito mais curta, cerca de 20 a 25 anos, enquanto uma central nuclear demora no mínimo 60 anos e pode durar até 100 anos.
Mas os países estão preparados para este desafio?
Uns estão mais preparados, outros menos, e há quem ignore o problema - é o caso de Portugal, que por enquanto não participa na Aliança Europeia dos Pequenos Reatores Modulares. Para mim, seria obrigatório estar presente, até para acompanhar o que está em desenvolvimento. A Europa não está a acompanhar o esforço desejado. Os Estados Unidos, até por razões militares, estão a investir nesta área, tal como a China e a Rússia. Para nos mantermos competitivos e atrair investimento na indústria, precisamos de uma base de energia muito competitiva. Hoje, os nossos custos são o dobro dos Estados Unidos e o triplo da China.
Nesta competição, a França pode ser um exemplo?
A França tem tentado investir nos pequenos reactores modulares com a New Board, mas sofre, como toda a Europa, de uma hiperregulação, com exigências desnecessárias que tornam a construção muito mais cara. É preciso fazer um esforço para simplificar estes processos, sem nunca pôr em causa a segurança, que deve ser sempre salvaguardada. Os Estados Unidos estão a simplificar o licenciamento de novas centrais para tornar o processo mais ágil.
A inteligência artificial tem aumentado o interesse pela energia nuclear. Como se explica este fenómeno?
A inteligência artificial requer enorme quantidade de energia para funcionar, com centros de dados que consomem tanto como países inteiros. Por isso, será indispensável utilizar energia nuclear, pois só esta combina densidade energética e fiabilidade, sem intermitência. Sem isso, estamos fora do mercado, como já aconteceu em várias indústrias que foram para a China, devido à nossa obsessão por liderar a transição climática com métodos inadequados, como a dependência excessiva das energias renováveis. Renováveis são um óptimo complemento, mas nunca podem ser o pilar; a base tem de ser nuclear. A China está a liderar todos os sectores críticos para a transição energética.
A cimeira foi marcada por críticas, nomeadamente da Greenpeace, que contesta o nuclear e alerta para riscos de segurança e dependência de cadeias de abastecimento ligadas à Rússia. A urgência de atingir a neutralidade carbónica e responder à procura de eletricidade não pode sobrepor-se aos perigos da energia nuclear?
Não. Pelo contrário, os maiores perigos estão associados à alternativa que a Greenpeace defende: energias voláteis, variáveis e incontroláveis. Isso é que constitui um grave risco ambiental. Para produzir a mesma unidade de energia, é necessário 20 vezes mais recursos, o que é insustentável ambientalmente. Além disso, é preciso armazenar energia em baterias ou barragens, duplicando o consumo de recursos. Por isso, os ambientalistas que rejeitam a energia nuclear acabam por ser os maiores inimigos do ambiente. Os verdadeiros aliados do ambiente são aqueles que defendem a energia nuclear, que é limpa, segura e competitiva.
O Médio Oriente está a ferro e fogo. Há uma tensão crescente nesta região do mundo depois dos Estados Unidos da América e Israel terem lançado uma operação conjunta contra o Irão. Teerão está a visar visando vários países da região.
O Presidente francês, Emmanuel Macron anunciou, esta terça-feira, que iria enviar para o Mediterrâneo o porta-aviões Charles de Gaulle, o maior navio de guerra francês. França está a reforçar os meios militares na região para defender os seus interesses e também os interesses de países aliados, caso dos países do golfo.
No magazine Vida em França desta semana, falámos sobre a posição francesa neste conflito. Em entrevista à RFI, Vítor Ramon Fernandes, professor de Relações Internacionais na Universidade Lusíada de Lisboa e também professor adjunto da Sciences Po Aix en Provence, começa por analisar o discurso de Emmanuel Macron, um discurso "muito pragmático", em que o chefe de estado francês "começa por responsabilizar o Irão".
Neste discurso, Emmanuel Macron fez uma dupla crítica: por um lado, contra intervenção israelo-americana, feita ao arrepio do direito internacional e sem consultar previamente as Nações Unidas. Por outro, uma acérrima condenação quanto à possível intervenção terrestre israelita no Líbano, que o chefe de Estado francês diz que, se vier a acontecer, "seria um erro estratégico".
Vítor Ramon Fernandes reconhece que a "situação está a escalar muito mais rápido do que imaginava", defendendo que já estamos perante a "regionalização do conflito", depois de vários países do golfo, como o Catar ou os Emirados Árabes Unidos terem sido atingidos.por ataques iranianos.
Neste programa, analisámos todas estas questões, numa altura em que o xadrez internacional é cada vez mais imprevisível e está em constante mudança.
Paris presta homenagem ao fotógrafo Sebastião Salgado com uma exposição na Sala Saint-Jean da Câmara Municipal. Concebida por Lélia Wanick Salgado, a exposição reúne 200 fotografias e propõe um percurso cronológico pela sua obra. Lélia Salgado recorda o início da carreira, em 1970, e destaca dimensões pessoais do fotógrafo. Organizada também por Fernando Eichenberg, a exposição inclui imagens inéditas de Paris, referências ao Instituto Terra e trabalhos do filho Rodrigo. Abre sábado e pode ser visitada até 30 de Maio.
RFI: Lélia Wanick Salgado, começo por evocar o verão de 1970, quando ainda era estudante de arquitectura e comprou a sua primeira máquina fotográfica, que acabou por ficar nas mãos de Sebastião Salgado. Foi assim?
Lélia Wanick Salgado: Olha, foi realmente uma coisa muito interessante. Eu queria ter uma câmara para fazer as minhas fotografias de arquitectura. Nesse verão fomos passar férias à Alta Sabóia. Tínhamos uma amiga com casa lá, muito perto da Suíça, e como na Suíça era muito mais barato, fomos lá comprar uma máquina.
Comprámos a máquina e, quando voltámos, eu peguei nela. Mas o Sebastião tirou-a da minha mão e começou logo a pôr o filme. Eu disse: “Mas espera aí, dá-me a máquina.” Ele saiu com ela e começou a olhar através da objectiva. E foi aí que começou tudo. Foi ali que a vida dele se transformou e que ele descobriu que queria fazer fotografia.
E foi a Lélia a primeira pessoa que o Sebastião fotografou, e a cores?
Fui, sim. Foi uma fotografia a cores. Ele fotografava a cores naquela altura. Fez uma fotografia minha sentada à janela. É uma fotografia muito bonita. Acho que está na biografia ilustrada que pode ser vista na exposição.
Estamos aqui na Câmara Municipal de Paris, onde vai estar patente, nos próximos meses, uma homenagem ao trabalho, à vida e à obra de Sebastião Salgado, incluindo também uma exposição do vosso filho, Rodrigo. Como foi construir esta exposição?
Essa exposição foi ideia da presidente da câmara de Paris, Anne Hidalgo. Ela pediu ao Sebastião que fizesse fotografias de Paris para a carta de votos de Ano Novo de 2025 da Câmara Municipal de Paris. Ele respondeu: “Olha, se não tiver fotografias boas, desculpa, não posso entregar.” Ele dizia sempre que não tinha conseguido nada, que estava tudo muito ruim. Mas fez muitas fotografias boas. Ela escolheu uma, que está aqui em grande formato, e depois quis fazer esta homenagem.
Fiquei muito honrada, disse que gostaria que a homenagem não fosse só ao fotógrafo, mas também ao homem que ele era. O homem que gostava da família. Nós temos um filho com síndrome de Down, o Rodrigo, e ele queria muito fazer uma exposição com os desenhos do filho. Fizemos uma exposição muito bonita em Reims, com 16 vitrais feitos a partir dos desenhos dele, como está sugerido aqui. Aqui não são vitrais, é apenas uma evocação, mas queríamos mostrar isso.
Infelizmente, o Sebastião não viu essa exposição, porque morreu na véspera. Por isso quis que aqui também se mostrasse o pai que fez tudo para que o filho pudesse fazer o que fez e ele fez coisas muito bonitas.
Outra parte importante é o Instituto Terra, o nosso trabalho ecológico. Plantámos uma floresta enorme. Até hoje já plantámos 3.500.000 árvores e vamos plantar muito mais. Temos muitos projetos de sustentabilidade, dentro e fora do instituto.
Também mostramos fotografias da coleção da MEP, da Maison Européenne de la Photographie, que nos acompanha desde o início. No começo, compravam fotografias; depois começámos a fazer doacções. Hoje têm quase 500 fotografias na colecção. Fizemos uma selecção dessas imagens e, como esta sala é muito bonita, preferi expor cópias grandes em vez das pequenas.
Como foi acompanhar esta viagem com o fotógrafo, com o homem? A presidente da câmara de Paris dizia há pouco que Sebastião Salgado viajou pelo mundo inteiro, e a Lélia também o acompanhou.
Sim, acompanhei muito. Viajei muito com ele, mas não para todos os lugares nem para todas as reportagens. As reportagens mais difíceis, mais duras, eu não quis acompanhar. Vivemos 61 anos juntos. É uma vida inteira. Ele era uma pessoa muito boa. Como viajava muito, também tínhamos os nossos momentos separados. Cada um podia viver um pouco a sua própria vida, os seus amigos, até os seus gostos — até na comida, porque cada um gosta de coisas diferentes.
Acho que foi muito interessante. Foi uma vida. Se tivesse de viver outra vez, viveria.
Fernando Eichenberg, director do estúdio Sebastião Salgado, destaca que a exposição foi organizada em apenas quatro meses e reúne 200 fotografias, incluindo imagens inéditas de Paris, o último trabalho de Sebastião Salgado.
RFI: Como é que se organiza uma exposição desta dimensão em tão pouco tempo, tendo tido pouco mais de quatro meses para preparar esta homenagem, que abre ao público no dia 21 de fevereiro?
Fernando Eichenberg: Foi um prazo muito curto. Normalmente não organizamos uma exposição num espaço de tempo tão reduzido. Mas Anne Hidalgo fazia questão de prestar esta homenagem ao Sebastião antes de deixar o cargo e contactou-nos no final de setembro.
Já havia uma relação entre eles e, agora que ele já não está aqui, era uma homenagem muito bonita para fazer em Paris. A Lélia teve a ideia de fazermos juntos e aceitou a proposta. Ela é responsável pela cenografia: desenhou tudo, pensou na organização, no que incluir. Decidimos reunir a colecção da MEP, a parte inédita de Paris, o Instituto Terra e as pinturas do filho deles, Rodrigo, que ainda não tinham sido mostradas em Paris.
Foi tudo muito intenso. As pessoas pensam que basta pendurar fotografias, mas há todo o trabalho de luz, curadoria, cenografia, textos. Foi muito exigente, mas valeu a pena.
São cerca de 200 fotografias, algumas muito conhecidas do grande público, em grande e pequeno formato, e há também imagens inéditas. São fotografias de 2024, tiradas em Paris, e apresentadas aqui pela primeira vez.
Foi o último trabalho que ele fez em vida. Depois disso, não voltou a fotografar até morrer.
É uma emoção mostrar estas imagens agora. Surgiram do pedido da prefeita para a carta de votos de fim de ano da Câmara. Ele envolveu-se muito e acabou por fazer muitas fotografias.
Percebemos que havia um material muito forte, e ele também gostou do resultado. Por isso decidimos apresentar este conjunto. Espero que o público aprecie este trabalho, que é realmente inédito.
A Transparência Internacional divulgou recentemente o Índice de Percepção da Corrupção 2025, que coloca a Dinamarca no topo da tabela, com 89 pontos, e o Sudão do Sul na última posição, com apenas nove. A França surge com 66 pontos, numa escala de 0 a 100, o valor mais baixo de sempre desde a criação do índice, em 1995. A descida ocorre após três casos de corrupção de grande impacto mediático que marcaram a actualidade francesa. Para Adriano do Vale, professor de Economia na universidade Poitiers e autor da obra "A Independência dos Bancos Centrais à luz da história, do pensamento e das práticas", o resultado reflecte a percepção que os próprios franceses têm do estado do país.
A França surge com 66 pontos, numa escala de 0 a 100, o valor mais baixo de sempre desde a criação do índice, em 1995. Como é que se explica esta tendência?
O índice produzido pela Transparência Internacional é, antes de mais, um índice de percepção, que tem como base sondagens, inquéritos de certa forma semelhantes a outros inquéritos e sondagens de opinião. Ou seja, aqui reúnem-se dados sobre a maneira como as populações percepcionam e compreendem estes fenómenos. Daí que a evolução que se regista para a França se deva à maneira como os franceses percepcionam a corrupção no seu país. E isso deve-se apenas a uma questão de percepção, o que tem muito a ver, claro, com a opinião pública, com a opinião publicada e com os acontecimentos recentes em França.
A Transparência Internacional cita os escândalos políticos ligados ao ex-Presidente Nicolas Sarkozy, que foi preso 20 dias em Outubro, depois de ter sido considerado culpado de solicitar ilegalmente fundos ao ex-líder líbio Muammar Kadhafi. E um outro caso ainda em julgamento: a líder da extrema-direita, Marine Le Pen, e outros membros do Partido Nacional, que foram considerados culpados, em Março, por desvio de fundos do Parlamento Europeu. De que forma é que estes casos mancham a imagem da França no Índice de Percepção da Corrupção?
Em ambos os casos, trata-se de aspectos financeiros, mas que dizem respeito, antes de mais, à vontade dos políticos de acumular poder, de se manterem no poder e de reforçarem as suas posições. Ou seja, uma dinâmica bem interna à política que, apesar de tudo, envolve aspectos que podem ser conotados como sendo de corrupção.
No caso do ex-Presidente Sarkozy, neste dossiê líbio, prende-se com a campanha eleitoral, com a vontade de ser eleito e com a necessidade, pelo menos do ponto de vista do candidato, de ter o maior número de recursos, sabendo, claro, que os recursos empregues numa campanha estão relacionados com os resultados eleitorais a obter. E, na altura, ao que se pôde averiguar, houve dinheiro da parte de Kadhafi, da Líbia, que veio para a campanha de Sarkozy. E aqui o que se passa é que estamos a falar de um país e de um líder que eram considerados persona non grata e que estiveram envolvidos, segundo o que foi averiguado, em actividades terroristas.
Depois há ainda o caso de Marine Le Pen…
No caso de Marine Le Pen, estamos a falar de um outro tipo de benefício: não o de ser eleita, mas, claro, o de acumular poder, de ter vantagem para o partido. Estamos a falar de fundos europeus desviados. Vamos esperar pela decisão final, mas, por enquanto, é essa a leitura da Justiça francesa. Fundos europeus que vêm das contribuições do Estado -porque, sublinhamos, o orçamento europeu é essencialmente composto por contribuições dos Estados -e, neste caso, o partido terá organizado um sistema em que o dinheiro que era dado para os assistentes parlamentares estava a ser, quase na íntegra, canalizado unicamente para a actividade da Frente Nacional em França, segundo a leitura da Justiça.
Ou seja, há aqui uma zona algo cinzenta. Nem sempre é fácil definir o que é a actividade francesa de um partido e o que é a actividade europeia de um partido. Mas, neste caso, segundo o ponto de vista da Justiça, não há dúvidas de que essa linha foi transposta, porque esses assistentes parlamentares não trabalhavam para causas europeias.
Em Maio, o Senado francês publicou um relatório onde revelou que o Governo encobriu fraudes contra consumidores perpetradas pela gigante alimentar Nestlé, permitindo à empresa utilizar tratamentos proibidos para produzir águas minerais naturais, incluindo a Perrier. Aqui estamos perante um caso que é mais de captura de interesses?
Sem dúvida. Aqui, contrariamente aos dois casos anteriores, em que, por mais que haja uma potencialidade de corrupção no caso de Sarkozy e uma dinâmica bem política no outro caso, estamos perante uma interface entre o político e os interesses privados, nomeadamente empresariais. E aqui a análise muda de perspectiva e torna-se claramente uma análise do âmbito da corrupção ou do conflito de interesses.
A corrupção é definida, nomeadamente no direito francês, como um processo ou comportamento pelo qual são solicitadas, aceites ou recebidas ofertas, promessas, donativos ou presentes com vista a uma contrapartida, consistente na obtenção de um acto, favor ou vantagem. Ou seja, a corrupção pressupõe uma relação.
Neste caso, sendo ainda necessário esclarecer certos aspectos, com ou sem contrapartidas directas, verifica-se a capacidade de interesses privados fazerem valer os seus objectivos, muitas vezes influenciando a não aplicação de normas ou a aprovação de determinadas regulações.
O conflito de interesses é uma noção um pouco mais subtil, mas a fronteira aqui também não é fácil de estabelecer. O conflito de interesses é aquele caso em que se pode suspeitar que alguém que tenha um cargo público não esteja a servir o interesse geral, mas sim o seu próprio interesse ou o interesse de um terceiro. E aqui entramos numa zona em que, à partida, não é necessariamente uma mala de dinheiro. A contrapartida pode ser, por exemplo, uma nomeação futura para o sector privado, depois do exercício do cargo público, uma reconversão no sector que foi regulado.
Uma facilitação para que determinada pessoa obtenha um cargo?
Com certeza. Ou, por exemplo, o facto de Durão Barroso, após ter sido presidente da Comissão Europeia, ter ido para a Goldman Sachs Europa gerou uma grande controvérsia nesse sentido, quanto à reconversão do detentor de cargo público após esse mesmo período de mandato. Pode-se questionar até que ponto esse detentor de cargo público foi íntegro, foi independente. Pode ter havido um pacto de corrupção implícito que tenha estado na base de uma promessa de emprego futuro. E depois o que é que se passa? Há uma troca de favores, de endereços, de contactos, do conhecimento da máquina legislativa, da máquina política, de acesso, etc. E é esse tipo de troca de favores que está em causa.
Além disso, chega-se ainda à conclusão de que há falta de recursos e de liderança na luta contra a corrupção. De que forma é que a transparência da vida pública e a regulação económica podem ser importantes na luta contra a corrupção?
Estamos a falar aqui da qualidade das políticas públicas. E estamos a falar não só da qualidade no sentido de elas serem eficazes, de atingirem os objectivos que se propõem, sejam eles o desenvolvimento económico, a coesão social e territorial, a luta contra as desigualdades ou a preservação do ambiente. Estamos a falar de atingir os objectivos, ou seja, trata-se da questão da eficácia.
Estamos a falar também da questão da eficiência: atingir esses objectivos com o menor custo, com boa gestão dos dinheiros públicos, dos fundos públicos, com qualidade das instituições. Mas eu diria mais: a questão da legitimidade. É aí que a questão se torna mesmo difícil e complicada neste momento para a Europa. Ou seja, quando falta legitimidade à política e às instituições, a democracia está enfraquecida.
E aqui combinam-se vários aspectos. Um é o sentimento de impotência, que vem muitas vezes da ideia de que há muita supranacionalidade. No caso europeu, por exemplo, há certos aspectos que não estão na mão dos políticos, nomeadamente em termos de política económica. Faltam ferramentas, mas, no entanto, esses políticos são responsabilizados pelos resultados económicos perante as suas populações.
Noutros casos, temos agências independentes, como, por exemplo, o Banco Central Europeu, que é ao mesmo tempo supranacional e independente, mas também uma série de agências a nível nacional que levam à diluição das responsabilidades e dos poderes, o que também não favorece a eficácia da acção pública.
Estes comportamentos podem justificar esta estagnação na Europa relativamente à queda dos índices de corrupção?
Eu falava da percepção que os franceses têm da política. Vimos há dias um instituto de sondagens a mostrar que só 22% dos franceses têm confiança na política. E estabelecemos a questão do sentimento de impotência: por um lado, as forças da mundialização, a integração económica, as agências independentes, uma democracia que é esvaziada, no fundo, do seu poder e da sua capacidade de transformar a vida real.
E depois este sentimento de que a política está ao serviço de certos interesses pessoais, de que os políticos não só governam para si mesmos, em certos casos, mas também governa para servir interesses particulares. E a questão dessa captura pelos interesses privados.
O Parlamento francês aprovou por unanimidade, no passado mês de Janeiro, um projecto de lei que visa excluir o dever de ter relações sexuais no casamento. A medida, se vier a ser aprovada pelo Senado, poderá contribuir para evitar lacunas jurídicas em casos de violação no casamento ou de divórcios por ausência ou recusa de relações sexuais. Em entrevista à RFI, Luísa Semedo, doutorada em Filosofia Política, considera que, com esta votação, os deputados enviam uma mensagem clara sobre a urgência de eliminar a ambiguidade da lei e impedir interpretações que imponham uma obrigação sexual no casamento.
O diploma ainda tem de passar pelo Senado, mas que mensagem enviam os deputados franceses ao votarem de forma unânime um projecto de lei que visa excluir o dever de manter relações sexuais no casamento?
A mensagem é a de eliminar a ambiguidade da lei. Em si mesma, a lei nunca afirmou explicitamente que é necessário ou obrigatório ter relações sexuais, mas o texto é suficientemente ambíguo para permitir esse tipo de interpretação. O objectivo é acabar com a possibilidade de julgamentos arcaicos que defendem que uma mulher ou um homem são obrigados a manter relações sexuais dentro do casamento e que, se não o fizerem, são de alguma forma culpados do que quer que seja.
A exclusão do dever conjugal elimina totalmente ambiguidades legais em casos de violação no casamento?
Como sempre, há uma diferença entre a lei e a prática. Seria perfeito se as leis fossem sempre cumpridas. A ideia de que a mulher ou o homem têm de estar sempre disponíveis sexualmente é profundamente cultural. No caso das mulheres, implica estarem à mercê do desejo do homem. Não é apenas uma questão legal; é algo que está enraizado culturalmente. Ainda vivemos com esse pensamento, profundamente patriarcal, que limita tanto mulheres como homens, embora por razões diferentes.
Este modo de ver o mundo não está apenas na lei, mas também na cultura e na arte. Em filmes, por exemplo, surge muitas vezes a ideia de que a ausência de relações sexuais significa que alguém está a falhar. E não é assim que deveria ser visto. As relações sexuais devem estar ligadas ao consentimento, ao desejo e à relação afectiva.
A França que chegou a ser condenada pelo Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, em 2025, num caso em que uma mulher foi considerada culpada de divórcio por recusar sexo ao marido….
Porque esta obrigação não faz parte dos textos fundamentais da lei. Mesmo em França, tratava-se de interpretações feitas por juízes e por jurisprudência, sem base no Código Civil ou na Constituição. Por isso, faz todo o sentido que os tribunais internacionais se tenham manifestado contra.
Houve também casos anteriores que marcaram a actualidade. Em 2011, houve pelo menos dois casos mediáticos: um homem condenado a pagar 10.000 euros de indemnização por falta de relações sexuais com a mulher e uma mulher condenada por ter recusado manter relações íntimas com o marido...
Estas decisões têm impacto em muitos outros casos. Por exemplo, no caso de Gisèle Pelicot, estava presente a ideia de que a mulher pertence ao marido e que, portanto, o marido pode fazer o que quiser com ela, como se existisse um dever. A mulher passa a ser vista como um instrumento ou um objecto, ao ponto de poder ser “emprestada” ou “alugada” a outros homens. Esta forma de ver os corpos como objectos continua a existir e tem consequências extremamente graves.
Estamos a falar de uma visão mais patriarcal?
Sim, claramente mais patriarcal, sabendo que o patriarcado também tem implicações negativas para os homens. Quando falamos de masculinidade tóxica, falamos disso mesmo: os homens são pressionados a estar sempre disponíveis, sempre “funcionais”. Parte-se do princípio de que o homem quer sempre ter sexo e, quando isso não acontece, ele é insultado, diminuído ou sente-se obrigado a ser performativo, muitas vezes perante outros homens.
O caso de Gisèle Pelicot mostra também isso: homens que mantêm relações sexuais à frente de outros homens como forma de pertença a um boys club, de validação da virilidade, daquilo que significa ser “macho” ou ser homem.
Esta lei pode oferecer maior protecção às vítimas de violência sexual no casamento, facilitando a denúncia e a prova de crimes sexuais entre cônjuges?
Penso que sim, na medida em que pode ajudar a mudar mentalidades. Pode tornar a violação conjugal mais presente no debate público e ajudar a consolidar a ideia de que insistir não é consentir. Dizer “sim” depois de insistência não é consentir; é ceder, é fazer algo que não se quer.
Em França, por exemplo, 57% das mulheres já tiveram relações sexuais dentro do casamento sem vontade. Isto corresponde, na prática, à definição de violação. É extremamente grave.
De que forma esta decisão reforça a protecção do consentimento e da autonomia individual dentro do casamento?
Reforça porque afirma que o indivíduo não é um instrumento ao serviço dos desejos do outro, mas sim uma pessoa autónoma, com vontade própria. O consentimento não é dado para sempre. Não é por uma pessoa casar que consente para sempre ter relações sexuais com o seu companheiro.
E não é sequer por ter iniciado uma relação sexual que não pode dizer “não” a meio. A qualquer momento, qualquer um dos dois pode dizer que não quer continuar. Isto reforça a ideia do indivíduo como alguém com desejos próprios, unicidade e autonomia, e não como um objecto utilitário.
Esta decisão do Parlamento francês pode ter repercussões noutros países?
Penso que sim. A França é um país muito observado neste tipo de questões e pode servir de modelo, tanto para outros países como para si própria, afirmando esta visão também a nível europeu.
Faltam já poucos dias para a segunda volta das presidenciais portuguesas em que o socialista António José Seguro vai enfrentar o líder de extrema-direita André Ventura no dia 8 de Fevereiro. Este frente-a-frente desperta debates acesos tanto em Portugal, como também aqui em França onde, segundo dados oficiais, vivem mais de 500 mil portugueses e quase 2 milhões de luso-descendentes.
Na primeira volta das presidenciais, a 18 de Janeiro, aqui em França, dos mais de 400 mil eleitores portugueses registados, uma ínfima parte votou, a taxa de abstenção tendo ultrapassado os 90%. E entre os cerca de 11 mil votantes efectivos nesse dia, mais 60% votaram pelo candidato de extrema-direita.
Em Portugal, não faltaram órgãos de imprensa, blogs e mesmo partidos políticos que comentaram estes dados, omitindo evocar a taxa de participação dos eleitores da diáspora, o que não deixou de suscitar reacções numa parte dos portugueses de França que não se revêm no retrato que foi feito deles em Portugal.
Nestas três últimas semanas, algumas associações posicionaram-se politicamente, surgiram também petições, entre as quais, uma que reclama a criação de condições que facilitem o exercício do direito de voto, uma outra rubricada por cerca de duzentas mulheres da diáspora e ainda uma que reúne as assinaturas de homens e mulheres da comunidade portuguesa de França que apelam à defesa dos valores democráticos.
Falamos com duas pessoas que assinaram a petição lançada pelas mulheres da diáspora, ambas professoras de literatura e língua portuguesa na região parisiense, Sílvia Meliciano e Mónica Cunha, que explicaram o que as levou a posicionar-se.
"Após o resultado da primeira volta das eleições presidenciais, houve um movimento de indignação que nasceu por parte de pessoas que fazem parte da diáspora portuguesa que não se sentiram representadas pelas notícias que a comunicação social passou para Portugal e que, na verdade foram os resultados das eleições, mas que têm que ser analisados com todos os dados", começou por explicar Mónica Cunha ao referir que esta carta aberta "nasceu da vontade de mulheres que não estão e nunca estiveram ligadas a partidos, de mostrar que "também têm voz e que na verdade estes resultados foram resultados de 96% de abstenção e portanto, desses quase 4% que votaram de facto, 60% votaram Ventura. Isto representa uma ínfima parte de quem são os emigrantes em França e está muito relacionado, naturalmente, com a dificuldade que as pessoas tem em deslocar se aos consulados para votar, muitas delas tendo que fazer 300 ou 400 quilómetros para poder exercer o seu dever e o seu direito de voto".
Apesar da forte polarização em torno destas eleições e apesar de ter havido em Portugal uma taxa de participação superior a 52%, em França foi o campo abstencionista que liderou as contagens. Para a docente, "a abstenção em França explica-se, por um lado, por haver uma percentagem já significativa de portugueses de segundas e terceiras gerações que não não têm propriamente uma participação política activa e que nem conhecem nem seguem de perto a política portuguesa. Mas, por outro lado, há também a dificuldade que as pessoas têm em ir votar, porque não é aceitável que os portugueses tenham que fazer um esforço, em muitos dos casos, de 300 e 400 km para poder ir votar".
Tal como Mónica Cunha, a também docente Sílvia Meliciano considera que existe uma série de factores para isso, nomeadamente a distância por vezes enorme entre os eleitores e as suas antenas consulares.
"Nós sabemos que muitos de nós já não nos sentimos representados pelos políticos que temos actualmente. Isso é uma das razões, mas talvez não seja a razão da maior parte. A segunda razão depois é também as condições do voto, em que temos que nos deslocar. Como há cada vez menos antenas consulares para as pessoas poderem votar, nestas condições as pessoas pensam duas vezes", considera Sílvia Meliciano que apesar das dificuldades concretas que existem para muitos portugueses radicados em França de exercerem o seu direito cívico, julga que isto não resulta de uma decisão consciente por parte das autoridades portuguesas.
No mesmo sentido, Mónica Cunha também diz que prefere não aderir a "discursos conspiracionistas" relativamente a esta questão.
"Não gosto de entrar em 'complotismos' pensando que todas estas decisões são estudadas com o objectivo de impedir as pessoas de votar. Agora, a realidade é que os portugueses no estrangeiro sentem que têm muito pouca voz, que têm muito pouca importância e, portanto, bastaria isso para que as pessoas sentissem esse apelo a mostrar que têm voz. Porque não dar atenção aos portugueses no estrangeiro ou dar atenção apenas em momentos em que eles são necessários, nomeadamente nas contribuições económicas, já é injusto. Portugueses são portugueses, estejam lá eles onde estiverem", observa a docente.
Do ponto de vista de Mónica Cunha, a forma como a imprensa em Portugal apresentou o voto dos portugueses de França traduz algum preconceito e também desconhecimento em relação a esta comunidade. "Às vezes há uma certa confusão, de facto, mas é lógico que quando em Portugal se vê comentários, nomeadamente nas redes sociais, que apenas espelham a desinformação, isso não contribui para que os emigrantes em França sejam mais considerados. Mas é lógico que isso são apenas preconceitos, porque a prova é que temos muita gente da diáspora a manifestar-se contra esses resultados, precisamente para provar que há muitos portugueses em França que continuam a preocupar-se com as políticas portuguesas, até porque muitos deles continuam a ter casas em Portugal e a manter uma vida activa, apesar de estarem no estrangeiro", aponta a professora.
Igualmente do ponto de vista de Sílvia Meliciano, o retrato que foi feito em Portugal da emigração em França na sequência da primeira volta das presidenciais resulta de alguma desinformação. Contudo, a professora observa que este olhar tende a evoluir nestes últimos anos. "Pergunto-me se ainda há entre os jornalistas esse preconceito sobre o emigrante que é ignorante, menos informado, que tem mau gosto, como acontecia muito nos anos 80. Um olhar um pouco snob. Ouvi estas coisas e reflectia sobre elas. Hoje entendo isso muito melhor. Acho que a sociedade avançou. Há cada vez mais elos sociais entre Portugal e França, mas também de pesquisa. Há cada vez mais pesquisadores luso-descendentes que podem também dar o lado daqui. Há intelectuais em Portugal que reconhecem a qualidade desse trabalho. Há todo um trabalho agora cada vez maior entre o que foi a emigração e o que é na realidade", diz a docente que se interroga sobre o modo como são construídas e 'consumidas' as notícias. "Os jornalistas limitam-se também, têm pouco tempo, tal como os cidadãos que às vezes olham para um jornal, dedicam cinco minutos a ler aquilo e já tiram conclusões", analisa Sílvia Meliciano, já de olhos postos sobre a segunda volta das presidenciais em Portugal.
Três semanas depois de uma eleição que foi considerada das mais renhidas em 50 anos de democracia em Portugal, com 11 candidatos oriundos de um espectro ideológico alargado, tal como os restantes cidadãos do país, os cerca de 400 mil eleitores portugueses registados em França vão ser novamente chamados às urnas no âmbito da segunda volta das presidenciais. Neste quadro, as secções consulares portuguesas de França, onde vão decorrer as operações voto da diáspora, vão estar abertas no domingo 8, mas igualmente no dia 7 de Fevereiro.
O assassínio de Lisabeth, jovem francesa de origem cabo-verdiana, de 23 anos, em plena luz do dia em Nice, França, teve um impacto profundo na comunidade cabo-verdiana residente no local. O caso trouxe para o centro do debate a urgência na prevenção da violência. Emilie da Veiga Moura, da associação Dix Étoiles, reconhece que a violência baseada no género é uma realidade recorrente e lembra que um dos maiores obstáculos continua a ser o silêncio das vítimas, muitas vezes imposto pela vergonha.
Para Emilie da Veiga Moura, presidente do conselho directivo da associação Dix Étoiles (Dez Estrelas), “foi chocante”. O crime ocorreu numa zona considerada tranquila, próxima de uma creche e de uma escola, o que acaba por abalar o sentimento de segurança.
As investigações apontaram rapidamente para um conflito intrafamiliar, reforçando uma realidade que, segundo a dirigente associativa, não pode continuar a ser ignorada. “Para nós, foi mais uma vez uma demonstração da violência, desta vez intrafamiliar, mas não só, da violência em geral”, sublinhou.
Apesar da dimensão do crime, a dirigente associativa e terapeuta rejeita leituras generalizadas sobre a comunidade cabo-verdiana. “A câmara de Nice tratou o assunto de forma a não ficarmos estigmatizados. Os cabo-verdianos não são todos violentos”, afirmou. Ainda assim, reconhece que a violência baseada no género é uma realidade existente e recorrente. “É uma forma de violência que existe. Esta é a causa principal da existência da nossa associação”, referindo-se à criação da associação Dix Étoiles a 08 de Março de 2025.
A instituição nasceu precisamente da necessidade de agir antes que a violência atinja níveis extremos. “É um problema que existe, mas tem que ser feito algo em termos de educação, em termos de prevenção”, defendeu. Um dos maiores obstáculos continua a ser o silêncio das vítimas, muitas vezes imposto pelo medo e pela vergonha: “Há muitas mulheres que vivem debaixo da pressão do marido, do companheiro e sentem vergonha”.
“Como terapeuta estou a acolher cada vez mais pessoas, começam a dizer ‘eu acho que sou vítima’, mas ainda não estão prontas para fazer queixa”, relatou. Contrariamente a uma ideia comum, aqui a dependência económica nem sempre é o principal factor. “Há muitas mulheres que ganham muito mais que os homens, cá no sul”, afirmou Emilie da Veiga Moura, que aponta o peso da humilhação, da exposição social e da educação como causas do silenciamento.
A estratégia da Dix Étoiles assenta na prevenção e na intervenção precoce, actuando em diferentes níveis da comunidade. Entre os projectos em curso estão a parceria com a Associação Cabo-Verdiana de Luta Contra Violência Baseada no Género, o trabalho local com jovens em situação de vulnerabilidade e a criação de um grupo de teatro franco-cabo-verdiano como ferramenta de sensibilização e diálogo intercultural.
O espectáculo de teatro e música “Nasr et Dinn, Deux Idiots Sublimes”, em português “Nasr e Dinn, Dois Idiotas Sublimes”, é o mais recente trabalho da actriz e encenadora Valérie da Mota, em parceria com Romans Suarez Pazos. Esta é uma peça de teatro infantil criada a partir das histórias de Nasreddine Hodja, uma figura mítica da cultura muçulmana, muito popular no Médio Oriente, que vai dando lições de vida, através de muito humor. Nesta adaptação, a personagem divide-se num duo travesso e tem também uma divertida e insolente versão feminina, interpretada por Valérie da Mota. Aqui ri-se de tudo e também se pode brincar com a religião, numa viagem metafórica sobre a tolerância e a aceitação dos outros e das suas diferenças.
Os “dois idiotas sublimes” viajam por terras e mares, do Magrebe à Galiza, à China ou à Mongólia, sempre acompanhados por um violino, música, histórias e desenhos dos cenários por onde passam, que vão sendo realizados e projectados no pano de fundo do palco.
“Nasr e Dinn, Dois Idiotas Sublimes” vai estar no Festival OFF de Avignon de 3 a 26 de Julho. Três anos depois de termos encontrado Valérie da Mota no Off de Avignon, com a peça “Marion 13 ans pour toujours”, fomos ver esta sua nova peça no Instituto do Mundo Árabe, em Paris, a 10 de Janeiro, e estivemos à conversa com a artista.
“O espectáculo é baseado nas histórias de Nasreddine Hodja, uma personagem muito conhecida em todo o Magrebe, no Médio Oriente e também até à China, até os países do Leste, mas aqui em França não é tão conhecida. É pena. É por isso que nós tínhamos esta vontade de fazer este espectáculo para dar a conhecer estas histórias muito antigas”, resume Valérie da Mota.
A artista sublinha que quiseram fazer “uma adaptação moderna destas histórias” e transformar o mítico mestre também numa mulher que representasse “a liberdade de actuar, de falar e a insolência”. Por outro lado, também quiseram mostrar que se pode rir, mesmo quando se fala de religiões, um assunto sensível em França.
Valérie da Mota faz questão de lembrar que “o teatro é uma ferramenta” que permite provocar o diálogo e a abertura para abraçar outras culturas.
O espectáculo de teatro e música “Nasr et Dinn, Deux Idiots Sublimes”, em português “Nasr e Dinn, Dois Idiotas Sublimes”, é o mais recente trabalho da actriz e encenadora Valérie da Mota, em parceria com Romans Suarez Pazos. Esta é uma peça de teatro infantil criada a partir das histórias de Nasreddine Hodja, uma figura mítica da cultura muçulmana, muito popular no Médio Oriente, que vai dando lições de vida, através de muito humor. Nesta adaptação, a personagem divide-se num duo travesso e tem também uma divertida e insolente versão feminina, interpretada por Valérie da Mota. Aqui ri-se de tudo e também se pode brincar com a religião, numa viagem metafórica sobre a tolerância e a aceitação dos outros e das suas diferenças.
Os “dois idiotas sublimes” viajam por terras e mares, do Magrebe à Galiza, à China ou à Mongólia, sempre acompanhados por um violino, música, histórias e desenhos dos cenários por onde passam, que vão sendo realizados e projectados no pano de fundo do palco.
“Nasr e Dinn, Dois Idiotas Sublimes” vai estar no Festival OFF de Avignon de 3 a 26 de Julho. Três anos depois de termos encontrado Valérie da Mota no Off de Avignon, com a peça “Marion 13 ans pour toujours”, fomos ver esta sua nova peça no Instituto do Mundo Árabe, em Paris, a 10 de Janeiro, e estivemos à conversa com a artista.
“O espectáculo é baseado nas histórias de Nasreddine Hodja, uma personagem muito conhecida em todo o Magrebe, no Médio Oriente e também até à China, até os países do Leste, mas aqui em França não é tão conhecida. É pena. É por isso que nós tínhamos esta vontade de fazer este espectáculo para dar a conhecer estas histórias muito antigas”, resume Valérie da Mota.
A artista sublinha que quiseram fazer “uma adaptação moderna destas histórias” e transformar o mítico mestre também numa mulher que representasse “a liberdade de actuar, de falar e a insolência”. Por outro lado, também quiseram mostrar que se pode rir, mesmo quando se fala de religiões, um assunto sensível em França.
Valérie da Mota faz questão de lembrar que “o teatro é uma ferramenta” que permite provocar o diálogo e a abertura para abraçar outras culturas.
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