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O chefe de Estado francês, Emmanuel Macron, aprovou esta semana a Lei Duplomb, depois de o Conselho Constitucional ter censurado uma disposição que previa a reintrodução de um pesticida da família dos neonicotinóides - o acetamipride -, prejudicial para a biodiversidade e com riscos para a saúde humana. Pedro Horta, membro da ONG ambientalista portuguesa Zero, considera que a decisão “faz todo o sentido” e admite que outros países europeus poderão seguir o exemplo da França.
O Conselho Constitucional francês censurou a medida mais controversa e de maior visibilidade do projecto de lei agrícola Duplomb, que previa a reintrodução do acetamipride, um pesticida prejudicial para a biodiversidade e com riscos para a saúde humana. Que importância tem esta decisão?
Esta decisão faz todo o sentido, tendo em conta aquilo que estava a ser proposto na lei, e fazia a reversão de algumas leis sem dar uma justificação técnica. Quando se reverte uma proibição deste tipo, por preocupações de saúde e ambientais, tem de haver condições especiais de autorização.
Quais são os impactos para o ambiente e para a saúde da utilização deste pesticida?
O grupo dos neonicotinóides é conhecido por ter efeitos tóxicos ao nível dos insectos - ou seja, as pragas que se quer combater -, mas também afecta outros insectos, nomeadamente polinizadores e insectos auxiliares, que são aqueles organismos que acabam por fazer um controlo das pragas de forma natural.
Em 2024, a Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos fez uma revisão do impacto dos insecticidas e propôs limites máximos desses resíduos nos alimentos, fazendo com que a dose de ingestão diária fosse diminuída. Houve ainda a percepção do risco na gestação de embriões e fetos em desenvolvimento ao nível de toxicidade. Aliás, foi essa a argumentação que se usou para baixar este índice de resíduos.
Apesar da percepção do risco, os restantes países da União Europeia continuam a utilizar este pesticida. A França - que integra a União Europeia - vai acabar por ver chegar ao seu mercado produtos produzidos com este pesticida…
Os produtos que são produzidos com este pesticida acabam por entrar no mercado único, porque não há barreiras comerciais. Porém, existem limites máximos de resíduos. Existe igualmente toda a legitimidade de um Estado-Membro querer legislar para proteger melhor a sua população e a forma de produção.
Aqui, o ónus fica também nos outros Estados-Membros, em reavaliarem-se e perceberem se faz sentido um uso tão alargado desse pesticida. Por exemplo, em Portugal, temos cerca de 25 produtos aprovados para comercialização com esta substância activa, mas ela é também utilizada sem autorização para uso numa grande diversidade de culturas.
Com esta revisão da dosagem diária de ingestão máxima e dos limites máximos de resíduos, decidida em 2024, o que se espera é que os próprios Estados-Membros façam uma reavaliação da forma como este pesticida está a ser usado. E, neste caso, a França foi pioneira, porque identificou um grupo de risco.
A decisão da França pode vir, de certa forma, a influenciar outros Estados?
Eu penso que sim. O Conselho Constitucional evoca artigos da Carta Ambiental que são muito semelhantes a outras constituições, incluindo a Constituição portuguesa. A questão da protecção do direito a uma vida saudável, num ecossistema equilibrado, é um direito fundamental. E, se de facto estas substâncias evocam algum risco, todos os Estados-Membros têm o direito de regular para além daquilo que é recomendado a nível da Comissão Europeia.
Quando se sabe que há um risco para os consumidores, onde é que se encontra um equilíbrio?
O equilíbrio está na aplicação de alguns dos princípios que temos no nosso ordenamento jurídico europeu e na aplicação das normas básicas da protecção integrada. Ou seja, devíamos estar cada vez mais a investigar formas alternativas de combater estas pragas, em vez de estarmos tão apegados a um modelo de uso sistemático de pesticidas.
Não é só a questão de banir. Todos os Estados-Membros deveriam ter a obrigatoriedade de fomentar o uso das boas práticas na questão da utilização de pesticidas. O produto deveria ser utilizado em último recurso, e não de forma sistemática. Em França, põe-se a questão da beterraba e das avelãs - culturas identificadas como estando em risco.
É possível produzir estas culturas sem este tratamento. Existem mecanismos de autorização de emergência no caso de, de facto, os danos económicos serem muito elevados.
Os agricultores franceses denunciam uma concorrência desleal…
O próprio Estado-Membro pode adoptar mecanismos para tornar o produto mais transparente. Pode recorrer a uma rotulagem para informar se foram utilizados pesticidas na produção agrícola, fazendo com que o consumidor final tenha acesso a essa informação. Esse nível de transparência também pode afectar a forma como os mercados depois respondem, através da regulação do preço. Produtos onde não foi utilizado o pesticida serão vendidos a um preço superior àqueles onde foram utilizadas substâncias químicas. Podemos evoluir mais nesse sentido, com práticas agrícolas mais transparentes para o consumidor final e intermédio.
Já aqui falou de uma alternativa aos pesticidas. A luta biológica pode ser determinante para os países da União Europeia?
Sem dúvida. E é por aí que temos que avançar, não só na compra e venda destes organismos auxiliares, mas também na própria forma como configuramos os sistemas de produção.
Claro que, quando temos uma monocultura - ou seja, apenas uma espécie cultivada em grandes áreas -, o risco de aparecimento de pragas e doenças é muito maior.
Porém, há maneiras de configurar o próprio sistema de produção com maior variabilidade, rotações de culturas ou associação de espécies - conjugação de espécies diferentes no mesmo espaço de produção.
Podem ser criadas faixas e corredores verdes que permitem que os auxiliares também se consigam reproduzir e fazer alguma limitação natural da praga. Ou seja, existe um conjunto de soluções técnicas possíveis, já testadas em campo, que devem ser adoptadas de forma mais generalizada.
Isso vai permitir evitar a dependência do uso sistemático de químicos e a inserção de policultura nos nossos sistemas agrícolas, dando um pouco mais de resiliência a quem produz. Porque, se houver uma falha numa cultura, há maiores capacidades noutras.
A grande questão é sempre a não captura de valor noutras partes da cadeia do sistema alimentar. Muitas vezes, o produtor é mal remunerado pelo que produz, colocando-o numa situação de risco com qualquer cultura que escolha. Em termos técnicos, é possível produzir sem uso destes pesticidas e é possível produzir de uma forma mais resiliente - em que o uso destas substâncias possa ser feito, de facto, apenas numa emergência, e não de forma sistemática.
Há um mês que é possível nadar nas águas do Sena dentro de zonas delimitadas. Um "sonho" para muitos parisienses que vem com algumas reticências em relação à qualidade da água. A RFI foi a um dos pontos em que os benhos são autorizados e falou com turistas e parisienses sobre esta experiência.
Há um mês que os parisienses podem oficialmente mergulhar no rio Sena. Para isso, foram criadas zonas específicas para que os banhistas possam mergulhar em segurança no Sena. Uma junto à Biblioteca Nacional François Mitterrand, outra perto da Câmara Municipal de Paris e uma outra junto à Torre Eiffel. A RFI veio até junto da Torre Eiffel para perceber como é mergulhar no rio Sena.
Desde logo, antes de vir, é indicado aos banhistas que verifiquem se a zona aprovada para nadar está aberta ou não. A cidade de Paris tem um site onde actualiza todos os dias se é ou não possível tomar banho tendo em conta as condições meteorológicas.
Caso seja possível nadar, como no dia em que viemos até ao rio, o acolhimento é caloroso em francês e inglês, já que muitos turistas estão a aproveitar as visitas estivais à cidade para dar um mergulho num dos rios mais famosos do Mundo como Ivan e Diana que vieram da Rússia para passar uma semana na capital francesa.
"É um pouco inesperado poder tomar banho no Sena, mas a vista é incrível. Eu e a minha namorada não hesitámos em vir, mas claro que tentámos não engolir água do rio, temos um bocadinho de medo devido à poluição. Conhecemos a possibilidade de nadar no rio através das redes sociais e incluímos o mergulho no nosso itenerário de viagem", explicou Ivan.
À porta destas três zonas estão sempre os avisos importantes: há correntes fortes no rio e há plantas que podem impedir os banhistas de voltar à superfície em caso de mergulhos demasiado profundos. Tal como numa praia normal, também há bandeiras verde, amarela e vermelha e estas zonas são vigiadas para segurança dos banhistas. Para além disso, quem vai à água é obrigado a andar com uma bóia amarela dentro da zona restrita do rio destinada aos banhistas. Algo que agradou e muito a Danielle, uma parisiense que apreciou tudo nesta estreia nas águas do Sena.
"Hoje foi a primeira vez que vim a banhos e foi uma optima experiência. A água estava a 23 graus e eu adorei. Há alguma corrente, mas a bóia ajuda muito a nadar e eu gosto de qualquer adereço que me ajude a fazer o menos de esforço possível na água e achei divertido estar no rio com aqiela bóia amarela. Eu e o meu marido acabámos por ficar muito tempo na água, talvez 45 minutos. Claro que é preciso ser mesmo assim um bom nadador, sei que há outros sítios no rio mais adaptados às crianças, mas há muita vigilância e isso deu-me muita confiança", detalhou Danielle.
Actualmente e após mais de 1,2 mil milhões de euros de investimento municipais, a água do rio Sena permite ir a banhos. No entanto, em caso de chuvas fortes, algo recorrente mesmo durante os meses de Verão a Paris, a água é constantemente analisada já que as chuvas podem trazer à surperfície águas contaminadas com a e.coli, uma bactéria que pode causar graves infecções no trato digestivo, urinário ou outras partes do corpo.
Desde o dia 05 de Julho, altura em que foi permitido nadar no Sena, os banhos foram proibidos em 18 dias devido ao resultado das análises. No entanto, Anatole, um jovem ucraniano que vive em Paris, não se deixou intimidar e diz que já veio nadar junto da Torre Eiffel pelo menos seis vezes em dias diferentes.
“Eu trabalho em casa então posso vir algumas vezes, já vim cinco ou seis vezes e correu tudo bem. Posso dizer a todos para vir pelo menos uma vez, vale a pena. Eu não tenho medo de tomar banho aqui. Sabe, eu venho da Ucrânia, portanto não tenho medo de bactérias. Conheço pessoas que trabalham na Câmara Municipal de Paris e eles explicaram-me que tudo foi bem preparado. Veremos se alguém fica doente, mas acho que, em geral, é algo positivo para a cidade”, declarou Anatole.
Mesmo se havia apreensões devido a possíveis consequências negativas, Olivier, que vive no Val de Loire e veio até à capital para visitar o filho que estuda em Paris, arriscou e diz não se arrepender de ter nadado no Sena.
"Era o momento perfeito para vir e contando com os Jogos Olímpico é a segunda vez que há pessoas a mergulhar. Estamos num quadro privilegiado porque até temos vista para a Torre Eiffel. E estamos em pleno mês de Agosto. Nadar no Sena foi agradável, a temperatura da água estava muito boa. Eu estava um pouco ceptico, pensava que a água não estava limpa, mas cinceramente está razoável, correu tudo muito bem. E, ainda por cima, é gratuito", descreveu Olivier.
Até agora já 35 mil pessoas nadaram no rio que banha Paris, com o dia 13 de Julho, quando as temperaturas ultrapassaram os 30 graus, a ter registado mais de 5.000 banhistas.
Devido à poluição e ao aquecimento global, e sendo uma das cidades mais densas do Mundo, as temperaturas em Paris têm vindo a subir com episódios cada vez mais frequentes de canícula que podem fazer com que os termómetros cheguem aos 40 graus.
Assim, para Danielle e milhares de parisienses, após anos de promessas poder nadar no Sena é um sonho.
"Para mim, poder nadar no rio Sena é um sonho concretizado. Desde que Jacques Chirac foi autarca que nos prometiam isto e acho que uma parte dos parisienses está muito feliz com esta possibilidade", concluiu Danielle.
“O Extraordinário Percurso da Comunidade Portuguesa de França” é uma série documental em oito episódios que fala sobre os portugueses e lusodescendentes de hoje em França, mas também recorda os que fugiram de Portugal no século XVI, os que combateram na Primeira Guerra Mundial e os que participaram na Resistência francesa durante a Segunda Guerra Mundial. A série é realizada por Carlos Pereira, director do mais conhecido jornal das comunidades por terras francesas, o LusoJornal, e está a ser difundida na RTP Internacional, ficando disponível online.
RFI: “Por que é que a série se chama ‘O Extraordinário Percurso da Comunidade Portuguesa de França’? O que é que este percurso tem de tão extraordinário?
Carlos Pereira, Realizador de “O Extraordinário Percurso da Comunidade Portuguesa de França”: “Eu acho que este percurso é, de facto, é extraordinário. A grande massa dos portugueses que chegaram nos anos 50, 60, não sabia ler, não sabia escrever. Eram, no melhor dos casos, iletrados, mas numa grande parte eram analfabetos e conseguindo dar a volta à situação, trabalhando muito, conseguiram impor-se e estar em França como se fosse quase em Portugal.
Eu acho que este percurso é mesmo um percurso extraordinário. E depois, ao trabalhar sobre este percurso, apercebi-me que isto já vinha de antes dos portugueses que participaram na Primeira Guerra Mundial, que estiveram na Segunda Guerra Mundial e que fizeram um trabalho importante também de resistência durante a ocupação nazi. Procurando ainda melhor, vimos que já os judeus portugueses que chegaram cá durante a Inquisição fizeram um trabalho impressionante de integração em França. Iniciei aí este percurso que inicia no século XVI e que chegou até hoje.”
Quantos portugueses e lusodescendentes é que vivem hoje em França? Ainda são uma “comunidade invisível” como outrora ficou conhecida?
“Essa pergunta já responde, de facto, que é uma comunidade invisível, isto é, nós não sabemos dizer o número exacto de portugueses que moram em França. Hoje ninguém tem estes números. Isto é sintomático. Nem Portugal tem estes números, nem também França tem estes números, portanto não sabemos. É uma comunidade muito grande que está em todo o lado. Encontramos os portugueses na política, nas associações, no desporto, na cultura, os empresários... Agora, o número exacto, quantos somos, não sabemos responder a essa pergunta.”
Muitas vezes os políticos falam em um milhão, um milhão e meio de portugueses em França...
“Ouve-se de tudo. Fala-se entre um milhão e duzentos mil e um milhão e quinhentos mil. Já aí entra esta diferença que é bastante grande, mas estima-se que esta comunidade ande por aí. Há muitos lusodescendentes que não têm a nacionalidade portuguesa, que não estão registados, que podiam ser portugueses a qualquer momento. E depois também há as mulheres e os maridos de portugueses que também podiam ser portugueses a qualquer momento se fossem pedir a nacionalidade e isto faria certamente números muito maiores.”
Como é que surgiu a ideia de fazer esta série documental?
“Era importante contar esta história. O que nós fazemos no LusoJornal regularmente é contar esta história, a história contemporânea de portugueses que moram em França. Não há nada ou há muito pouco registado em vídeo, isto é, não há muitos documentários sobre os portugueses de França.”
Há os documentários do realizador José Vieira.
“Pois houve alguns documentários do José Vieira, mas há muito poucos documentários sobre os portugueses de França e são muito sobre a história, sobre ‘o salto’, sobre antes do ‘salto’ ou depois do ‘salto’ e não tanto sobre os portugueses de hoje e eu quis dar a minha contribuição. Propus à RTP, a RTP também queria fazer um trabalho sobre isto, apareci num bom momento, na boa altura, a compra estabeleceu-se, fizemos este acordo e a série foi feita em oito episódios por enquanto. Espero que haja uma segunda série, era importante que se retratasse este percurso e, sobretudo, que se fizesse uma fotografia actual de uma comunidade enorme, como já dissemos, mas que é tão desconhecida em Portugal e em França. Ainda recentemente, neste último episódio sobre os judeus, houve muita gente que me ligou e que me disse que não conhecia esta história, nem portugueses nem franceses.”
Qual é essa história dos judeus portugueses em França?
“Os judeus saíram de Portugal durante a Inquisição e uma parte pequena, apesar de tudo, veio instalar-se em França, onde também não podia haver a prática judaica. O rei Henrique II decide permitir a instalação deles em Bordéus - ou na faixa entre Bordéus, Hendaye e Bayonne - dizendo que eles também não são judeus, porque tinham sido convertidos à força em Portugal, cristãos novos, e arranjando ali alguns argumentos decide autorizá-los a ficar. Dali foram-se expandindo no país inteiro e deram um primeiro-ministro Pierre Mendès France, o Georges Mendel, os irmãos Pereira, isto é, desenvolveram os caminhos-de-ferro em França, as termas, fizeram aqui impérios e depois chegou a Segunda Guerra Mundial e veio estragar um pouco esta comunidade já que muitos deles foram deportados e mortos.
Ficaram uma sinagoga portuguesa em Paris, outra em Bordéus e outra em Bayonne, onde se pratica ainda agora o rito português que é um rito muito específico, embora já não sejam portugueses a ocupá-las ou muito poucos a frequentá-las e são os judeus da África do Norte que, entretanto, sendo também sefarditas, embora pratiquem um rito diferente, foram-se habituando a praticar o rito português, já que estas sinagogas obrigam, por estatuto, que se siga o rito português até ao fim dos tempos. Depois ficou um cemitério judeu em Bordéus e o primeiro cemitério judeu em Paris que ainda hoje é possível visitar se for pedida autorização ao consistório. Eu visitei e filmei.
Ainda ficaram alguns rastos desta comunidade e eu acabo o documentário no Josué Ferreira, que é um lusodescendente que acabou por ser a primeira mulher rabina a ser ordenada em França e que depois mudou de nome e de sexo e agora é Josué Ferreira e é rabino na comunidade liberal em Montpellier. É um lusodescendente que se converteu ao judaísmo e hoje é um rabino.”
Outro episódio, difundido em Junho, chama-se “Lusodescendentes e politicamente implicados em França”. O que é que representam estes luso-eleitos no mapa político francês em termos de números e em termos de visibilidade da própria emigração portuguesa?
“Segundo a Cívica, portanto, a associação dos autarcas de origem portuguesa, há por volta de 8.000 autarcas de origem portuguesa. Este número também não é fácil de verificar. No LusoJornal verificámos uma boa parte, uns 80%, e este número não deverá andar muito longe daí. Isto chega-se lá através dos nomes, mesmo se depois há os Costas que até poderão ser espanhóis. Ou então, por exemplo, uma autarca que tinha o apelido francês devido ao casamento, mas que é portuguesa. Portanto, 8.000 representam muito e os portugueses - repito - chegaram cá praticamente analfabetos. Eles não conheciam o sistema francês e descobriram tudo. Houve aqui todo um trabalho de afirmação, digamos assim.
Há os autarcas, depois há os deputados. Há quatro deputados actualmente na Assembleia Nacional Francesa e nós entrevistámos dois deles. Depois, entrevistámos os presidentes de câmara, vereadores em Paris, na região parisiense, mas também em Clermont-Ferrand, onde há uma comunidade grande portuguesa e há, aliás, uma deputada de lá. No fim, na altura em que filmámos, uma lusodescendente tinha chegado ao Parlamento português: era a Nathalie Oliveira e ela conta também esse percurso de como é que fazendo um percurso no PS francês, ela acabou por ser eleita deputada em Portugal, apesar de muitas dificuldades. Era o retorno, no fundo, da moeda, era o regressar a Portugal enquanto deputada.”
Há outro episódio que tem como título “Associações Portuguesas de França - Uma teia de Influências”. Qual é que tem sido a importância do movimento associativo português em França? E por que é que de 900 associações portuguesas no final dos anos 90, hoje há muito poucas?
“Hoje há muito menos associações portuguesas em França porque o problema hoje não é o mesmo. Nos anos 70 e 80, ainda não havia internet, ainda não havia redes sociais, ainda não era possível ver a televisão portuguesa em França e, por isso, as pessoas juntavam-se numa associação e a associação era o terreno que eles constituíam aqui. Hoje, isso já não é preciso, isso já não é prioridade. As pessoas iam a uma associação muitas vezes encontrar trabalho, encontrar casa, encontrar mulher ou marido, até nos grupos de folclore. Isso hoje já não é uma prioridade e, portanto, muda-se muito os objectivos e há muitas associações que não se souberam adaptar e que vão certamente acabar. Há muitas que já acabaram. Eu escolhi apenas grandes associações que fazem a diferença, já que evidentemente eu não podia entrevistar 900 e tal associações.”
Quantas associações há hoje?
“Não sei e esse é também um problema. É que nós não sabemos exactamente o número de associações que existem em França. Em França, é muito fácil criar uma associação, isto é, duas pessoas juntam-se e vão declarar a associação. Demora três ou quatro dias e custa 20 e tal euros. Há muitas associações que depois existem no papel e não existem na prática. Enfim, é completamente impossível dizer o número de associações portuguesas que há em França.
Agora, eu escolhi umas oito ou nove e escolhi aquelas que se impuseram mais, ou porque construíram edifícios enormes que estão actualmente a dinamizar e a ceder às próprias Câmaras Municipais ou então, como em Dijon e em Clermont-Ferrand, ou a associação de Pontault-Combault que faz um festival enorme todos os anos que é já uma festa da própria cidade, embora seja organizada por uma associação portuguesa. Isso acontece em Clermont-Ferrand também. Também escolhi a Associação de Nanterre porque organiza uma feira de produtos portugueses e aqui há também esta dimensão comercial ou de promoção regional de produtos endógenos num outro país. Escolhi a associação O Sol de Portugal que foi a primeira associação juvenil a ser criada em França, é uma associação em Bordéus que tem a particularidade de até agora nunca nenhum homem a ter dirigido e sempre foi dirigida por mulheres e tem experimentado, de há uns anos para cá, uma nova fórmula que é uma co-presidência. Portanto, actualmente há três mulheres a presidir a esta associação.”
De todos os episódios, quais são aqueles que mais o marcaram?
“Eu gostei muito de realizar os episódios sobre a Resistência e sobre os judeus, já que eu tinha feito uma sinopse inicial e ela acabou por ser completamente alterada. Isto é, eu fui aprendendo tanta coisa nova durante a própria realização que fui alterando. Esses dois marcaram-me muito. Portugal é um país neutro na Segunda Guerra Mundial e afinal eu entrevistei famílias de pessoas que foram fuziladas devido a serem resistentes, de pessoas que foram levadas num comboio para campos de concentração alemães e morreram no comboio, deitaram-nos do comboio abaixo. Isto é, aprendi muito em relação a estes dois episódios um pouco mais históricos.
O episódio sobre o fado eu gostei muito de o ter realizado. Há um mundo fadista português aqui. Eu mostrei esse mundo fadista e gostei bastante. E depois todos os outros. Gostei dos empresários, do desporto, da cultura. Esses ainda não passaram, ainda vão passar agora. São episódios muito engraçados que mostram coisas novas e o importante é que eu agora receba mensagens de gente que me diga ‘Nunca vi isto assim, com este olhar’. Um olhar global, digamos assim. Aprendi muito. Fico contente por saber isso e por ter conseguido dar esta imagem global e de levar coisas novas que as pessoas não sabiam.”
Vamos a esse universo fadista em França. Que universo é?
“É um universo muito feminino, mas isto é a circunstância do tempo porque houve já mais homens a cantar fado no passado, mas actualmente é um universo muito feminino e, portanto, eu fui buscar uma cantora que é a Mónica Cunha, que aprendeu a cantar em Portugal e que veio para cá dar aulas de português e acabou por se impor aqui também enquanto fadista. Também fui buscar uma jovem que já nasceu cá, que nunca viveu em Portugal e que, à força de corrigir o sotaque, ela impõe-se no meio fadista aqui como uma grande fadista, a Jenyfer Raínho. Fui buscar uma francesa, a Lizzie, que não tem absolutamente nada a ver com Portugal e que um dia viu na televisão uma reportagem, viu alguém a cantar e disse ‘Eu adoro esta música’. Hoje ela fala um português perfeito e canta muito bem. Fui buscar pessoas que vêm de outros horizontes, isto é, da bossa nova, por exemplo, como é o caso da Tânia Raquel Caetano e que se aproximou a seguir do fado. Fui buscar um músico como o Philippe de Sousa, que viveu até muito pouco tempo em Portugal, mas que é um fadista, ou melhor, ele toca viola inicialmente, depois descobre a guitarra de fado e hoje leva essa guitarra de fado a outros universos do jazz, portanto com outras músicas, de outros horizontes menos convencionais e isso interessou-me muito. Pelo meio, há o Jean-Luc Gonneaud, um especialista de fado, francês, que um dia foi a Lisboa, já há muitos anos, porque fez um estágio em Lisboa e apostou com um irlandês que iam cantar um fado. No dia em que iam cantar, o irlandês disse que não ia. Ele foi e cantou o fado ‘O Marceneiro’. Desde aí ele é muito conhecido no mundo fadista em Portugal também, e muitas vezes assume esta ponte entre a França e Portugal.”
Fala-se muito nas histórias de sucesso de empresários portugueses... Também as aborda...
“O meu objectivo não era ficar naqueles empresários que nós já conhecemos todos e que são empresários de sucesso. Eu fui à procura de nova gente e encontrei, por exemplo, o Michel Vieira, em Lyon, que ninguém conhece e é o maior empresário português de França. Ele já nasceu cá porque os pais vieram para cá, o pai era bate-chapas, a mãe era mulher-a-dias e resolveram instalar-se aqui por mero acaso. Ele conta a história no filme. Ele fez um CAP, que é um diploma de base a seguir à quarta classe, e aprendeu a ser electricista. Andou a trabalhar nas obras e não gostou, disse que tinha muito frio, voltou à escola e resolveram propor-lhe uma especialização em electrodomésticos. Ele começa a reparar máquinas de lavar a louça e a roupa e, a partir daí, entra numa empresa ainda estagiário, vai crescendo, chega a chefe técnico, chefe comercial, depois director-geral e compra a empresa ao patrão. A empresa devia ter uns 12 milhões de euros naquela altura e ele começa a comprar outras empresas e comprou uma por 500 milhões de euros - é até hoje o único empresário sem sequer o 12° ano a obter um crédito de 500 milhões de euros. E se tudo funcionar bem, como ele espera, agora em 2025 ele vai chegar ao fim do ano e vai ter mil milhões de volume de negócios. Portanto, será o maior empresário português em França a entrar no grupo das 300 maiores empresas francesas. É uma história impressionante. Ele costuma dizer: 'Só foi possível por eu ser português, porque eu não estou a ver como é que vão dar um crédito a uma pessoa assim que chega e que não tem estudos nenhuns, que vem pedir um crédito de 500 milhões de euros, é só mesmo por eu ser português e eles reconhecerem o facto de ser trabalhador.'”
O Carlos Pereira também aborda os portugueses no mundo cultural francês...
“Em relação à cultura, o meu objectivo não é de contar os portugueses que estão a dominar os centros culturais ou teatros aqui em Paris porque essa é uma história que já muita gente conhece. Fui buscar pessoas que estão em horizontes muito diversos. É muito difícil fazer um episódio como este sobre a cultura ou sobre o desporto, já que há tanta gente a fazer cultura, a fazer desporto em domínios diferentes.
Fui buscar uma realizadora, a Cristelle Alves Meira, fui buscar um coreógrafo que tem uma companhia em Bayonne que está a funcionar muito bem, o Fábio Lopes, foi buscar um pianista, Ricardo Vieira... Isto é, fui buscar várias pessoas a trabalharem em ramos diferentes e juntei-as de maneira a mostrar precisamente a diversidade, sem ser um catálogo onde se mostra tudo. Há muita gente que infelizmente não consegui pôr, mas o objectivo era mostrar que há gente em várias áreas.
Mostrei isso também no desporto. Não queria falar só sobre futebol. Isso é um grande erro, pensar que os portugueses de França são todos adeptos de futebol e fazem todos futebol. Há portugueses em muitas outras áreas, no futebol também, é evidente, mas os portugueses dominam o futsal francês, há modalidades mais pequeninas, como o bilhar, os matraquilhos e a pelota basca que tem uma federação portuguesa que nasceu em França. A minha ideia era mostrar a diversidade e não tanto fazer um inventário de quem faz o quê.”
A série “O Extraordinário Percurso da Comunidade Portuguesa de França” pode ser vista no site da RTP.
O actor franco-português Lionel Cecílio regressa pelo segundo ano consecutivo ao festiva Off de Avignon com o espectáculo "La Fleur au fusil". Entre sala cheia, a distribuição de panfletos na rua e convicções firmes, Lionel Cecílio fala-nos dos desafios do teatro independente e da sua adesão à Declaração de Avignon II pelo fim da guerra em Gaza.
Entre os cartazes que invadem as ruas de Avignon, onde o Festival Off reúne este ano um número recorde de 1734 espectáculos, fomos ver "La Fleur au fusil", A flor no cano da espingarda. É a flor do cravo, símbolo de Abril, que o actor franco-português Lionel Cecílio leva de novo ao palco, num monólogo sobre a Revolução dos Cravos. Sozinho, sim, mas com ele, sobem à cena mais de uma dezena de personagens com memórias e sonhos.
“Este espectáculo viveu durante um ano e transformou-se”, diz-nos Lionel Cecílio. A decisão de regressar a Avignon foi imediata. A experiência do ano anterior deixou-lhe a certeza de que o tema era uma urgência. “Compreendemos que este assunto, que é a revolução dos cravos, vai mais além do povo português. É um espectáculo que é universal, de liberdade e de união do povo”. Foi essa universalidade que o público francês soube reconhecer, acolhendo a peça com aplausos e empatia.
A peça, criada com o encenador Jean-Philippe Daguerre, estreou-se numa pequena sala de 100 lugares, em 2024. Rapidamente se encheu e impôs o seu lugar entre tantos. “Foi um sucesso imenso”, recorda o actor. E assim se fez o caminho de regresso, agora com mais estrutura, mais convicção e uma agenda que se prolonga para além do verão: “Temos agora a sensação certa que este espectáculo tem que viver muitos anos ainda”.
Ser programado no Festival Off não é tarefa simples. Lionel Cecílio explica o processo: “As companhias têm que ter contacto com directores daqui de teatro… são teatros todos privados… depois temos que alugar a sala”, conta, sublinhando o risco que as produtoras assumem. Mas quando o encontro com o público acontece, “fica tudo óptimo”. Foi o seu caso, os directores da sala onde actua, no Théâtre des Gémeaux, viram o espectáculo no ano anterior e acreditaram: “Assinámos muito rapidamente”.
Num mar de propostas, o desafio é destacar-se. Não basta ter talento, “temos que ter muito mais coisas para se destacar e para sobreviver aqui nesta linda guerra do espectáculo vivo”, diz. A primeira arma é o nome do teatro. A segunda, o nome da companhia. A terceira, a mais poderosa, é o bouche-à-oreille: o passa-palavra. “É o público que quando vê uma coisa que gosta vai dizer a outros: ‘Tem que ver isso, tem que ver isso’". E isso, para o actor é mágico.
Magia é também é o que se vive nas ruas de Avignon. A partilha de panfletos, os encontros fortuitos, os convites sincero: “Eu digo sempre que é assim como se a gente convidasse alguém a comer a casa”, compara. Um gesto simples, íntimo e humano. Em Avignon, os actores estão na rua, de igual para igual, frente-a-frente com quem os poderá vir a ver em palco. “Eu vi-te ontem, eu vou-te ver amanhã”, ouve-se. E nasce aí uma cumplicidade rara entre quem dá e quem recebe o teatro.
Mas o Festival Off não é só palco, é também montra: “É assim como se fosse um grande salão do teatro”, descreve Lionel Cecílio. Por ali passam programadores de toda a Europa. Foi graças a essa exposição que "La Fleur au fusil" vai circular, nos próximos tempos, por palcos da Bélgica, da Suíça e de Portugal. “É um grande orgulho para mim”, confessa.
À pergunta sobre a Declaração de Avignon II, assinada por mais de uma centena de artistas no festival, apelando ao fim da guerra em Gaza, Lionel Cecílio não hesita: “A minha percepção do mundo de artista é de ter uma visão. E essa visão eu tenho que assumir até à vida real”. Não há neutralidade possível quando a arte fala de liberdade, quando o palco revive Abril e as bombas caem sobre inocentes.
“Eu não posso ir ao palco com o espectáculo sobre a revolução dos cravos, para dizer que a unidade, paz e liberdade foram possíveis há 50 anos e deixar uma guerra injusta aqui mesmo ao pé de mim”, afirma. Para Lionel Cecílio, o compromisso artístico não pode estar dissociado do compromisso humano. Por isso, vai assinar a petição. Por isso, apela à consciência: “Acho que temos todos que assinar”.
O bailarino guineense Joãozinho Costa sobe ao mítico palco do Palácio dos Papas com NÔT, de Marlène Monteiro Freitas. Pela primeira vez em 79 edições, o festival de Avignon, o abriu com dança. Em cena, a pulsação é contínua, o corpo é total e a Guiné-Bissau está presente em cada gesto de Joãozinho Costa.
No Festival de Avignon, o corpo fala, ou melhor: o corpo convoca e revela. Em NÔT, da coreógrafa cabo-verdiana Marlène Monteiro Freitas, a linguagem é feita de carne, músculo e ritmo. Entre os oito intérpretes está Joãozinho Costa, bailarino guineense, que descreve o espectáculo como “uma história de As Mil e Uma Noites contada com energia, com tudo aquilo que o corpo tem para oferecer”.
“É a pulsação, não é?”, começa por explicar. “A vontade de contar essa história As Mil e Uma Noites… tentar passar de uma forma mais energética possível toda a mensagem através da linguagem corporal e de todos os movimentos coreográficos que nós temos trabalhado”. Em palco, não se entra de leve e “cada noite de espectáculo é para ser mais emocionante e marcante, para os espectadores e para nós também”, conta.
Este ano, pela primeira vez, em 79 edições, o Festival de Avignon foi inaugurado com dança. NÔT abriu o festival no dia 5 de Julho, coincidindo, como Joãozinho Costa sublinha, com uma data simbólica: “Se não me engano, o dia 5 de Julho também foi a comemoração da independência de Cabo Verde. Isso torna tudo ainda mais fantástico. A presença da Marlène na abertura do festival torna o nome dela ainda mais aclamado e mostra que o seu trabalho é válido para qualquer palco e qualquer momento”.
No monumental Palácio dos Papas, onde a arquitectura parece amplificar os movimentos e o som de cada gesto, Joãozinho descreve uma atmosfera distinta: “Sente-se uma energia completamente diferente dos outros palcos. Mesmo vazio, sente-se uma energia arrebatadora.” E acrescenta: “É um palco magnífico. Estar aqui é como estar em casa. A equipa técnica é magnífica, e isso deixa-nos ainda mais confortáveis”, partilha.
A cumplicidade entre os intérpretes, que o público não tarda a perceber, vem de bastidores: “Estamos prontos para o colega e prontos para o espectáculo. Estamos com os sentidos completamente ligados”. Segundo o bailarino, esse estado de atenção constante é também uma transformação pessoal: “Trabalhar com a Marlène é entrar num outro mundo, um mundo que obriga a descobrirmo-nos dentro dele e a forma como ela pensa coisas transforma-nos”.
Essa transformação faz-se através da minúcia. “Temos de prestar atenção às coisas mais pequenas. Gestos minúsculos também contam. Até a expressão do olhar conta”, sublinha. E aqui, a exigência aproxima-se da de um atleta: “Eu comparo o trabalho da Marlène ao dos atletas de alta competição. Os sentidos têm de estar todos activados. E como vim do futebol, isso ajuda-me. É preciso estar sempre em alerta. É um estado físico e mental”.
Nesse estado, Joãozinho Costa carrega o peso e a leveza do seu país: “A Guiné-Bissau está sempre comigo e acho que nunca poderá estar ausente. Só o facto de eu existir já traz a Guiné comigo”. Os seus movimentos não são neutros: “Têm um tom que vem do Gumbé, do Dina, trazem uma maneira de estar que é diferente dos outros intérpretes”. E essa diferença não separa, antes acrescenta: “Acho que isso enriquece o trabalho e complementa a narrativa que a Marlène quer passar”.
Mas Avignon não é um lugar fácil: “O público aqui é bastante exigente. É o primeiro público em que sentimos, de forma clara, o que estão a sentir durante o espectáculo”. E quando o espectáculo não os conquista? “Há público que sai. E nós sentimos essa energia. É impossível esconder. O espaço é tão grande que tudo se vê e tudo se ouve”, descreve.
Ainda assim, a deserção não desanima, antes pelo contrário: “Quando sentimos que alguém sai porque não está a gostar, isso dá-nos uma posição mais confortável para continuar a pressionar a boa energia. É quase como pensar: ‘Se eu estava a perder bateria, então deixa-me agora pressionar aqui mais um bocadinho, para ver se a bateria aguenta mais um tempo'”.
Para Joãozinho Costa, o que o público vê tudo: “Vêem a nossa cumplicidade em cena. Aquilo que está nos bastidores está também no palco. E isso sente-se. Acho que não há nada a esconder”. Essa transparência é total e a entrega é plena: “Estamos ali, corpo e alma, sentidos ligados, prontos para dar”.
E quando lhe pedem que resuma tudo numa só palavra: o Festival, a cidade, a experiência, Joãozinho não hesita muito: “Diversidade. Diversidade no seu máximo esplendor”. É isso que sobe a palco com ele: a vibração de um corpo que escuta, a memória de uma terra que nunca o abandona, a coragem de expor tudo perante dois mil olhares.
Em NÔT, como no próprio festival, não há lugar para o meio termo. Ou se gosta, ou não se gosta, mas o que se vê ali não é apenas dança é o corpo como linguagem e o gesto como território.
O artista brasileiro Cildo Meireles expõe “Cruzeiro do Sul” na Orangerie do Senado, em Paris, de 3 a 17 de Julho. Trata-se de uma peça de 9 milímetros capaz de “incendiar consciências” devido a todo o significado que carrega, explica a comissária Sívia Guerra. A RFI leva-o até à exposição para ouvir Cildo Meireles, Sílvia Guerra e o realizador Tiago Hespanha.
Um cubo de 9 milímetros num espaço mínimo de 200 metros quadrados. Uma obra de arte no chão a desafiar a atenção do visitante que pisa milhares de pedrinhas até chegar ao Cruzeiro do Sul. Assim se chama a peça, concebida em 1969-1970 e apresentada pela primeira vez em França, no espaço Orangerie do Senado, em Paris. “Cruzeiro do Sul” está patente de 3 a 17 de Julho. O autor é um dos mais importantes artistas brasileiros contemporâneos, Cildo Meireles, que nos deu algumas pistas sobre a obra.
“A peça partiu de uma premissa que era uma relação com o espaço onde ela está, mas foi acrescentada uma espécie de simbolismo que era uma negação daquilo que você vê. Então, ela se funda numa história, numa cosmogonia dos índios brasileiros, cuja divindade era Tupã, deus do fogo e do trovão, e que os jesuítas, quando chegaram, reduziram. A peça faz referência ao atrito entre uma madeira pouco densa como i pinho e uma muito densa como carvalho, porque era friccionando uma haste de pinho numa peça de carvalho que você obtinha um fogo que era uma espécie de materialização dessa entidade central na cosmogonia tupi”, explica Cildo Meireles.
A fragilidade de uma peça de tão pequena escala deixa-a ainda mais exposta ao público e carrega simbolicamente o peso de todo o processo de colonização e da resiliência dos saberes e mitos indígenas brasileiros. O pequeno cubo é feito de pinho e de carvalho, uma combinação que convoca imagens ancestrais da descoberta do fogo e que comporta a promessa de “incendiar consciências”, conta Sílvia Guerra, co-comissária da exposição.
“O espaço de 200 metros quadrados não está vazio. Está repleto de lendas e de histórias de um dos povos originários do Brasil, que é o povo tupi que esfregava o pinho e o carvalho para fazer o fogo (...) É uma peça que nos fala da História, fala-nos de invasões, fala-nos de relação ao espaço, fala de pessoas mais humildes, fala daqueles que não tinham um nome próprio (...) Esta peça, além do fogo, fala da preservação e que o fogo pode ser benigno ou maligno. De uma certa forma é um incêndio, como diz o meu colega Laurent Fiévet, nas nossas consciências também”, explica a comissária.
A obra é acompanhada pela projeção do documentário “Cruzeiro do Sul” de Tiago Hespanha, criado para a exposição.
“Cruzeiro do Sul”, de Cildo Meireles, está patente de 3 a 17 de Julho na Orangerie do Senado, em Paris, no âmbito da temporada cultural Brasil-França 2025.
Do luminoso Grand Palais à galeria impressionista do Musée d’Orsay, vários artistas brasileiros apresentam as suas obras em Paris. No Grand Palais, as exposições Horizontes e Nosso Barco Tambor Terra oferecem cores, luz e uma convidativa instalação sonora onde o público toca instrumentos de percussão. Já no quinto piso do museu d’Orsay, Lucas Arruda surpreende com paisagens imaginadas entre Monet e Cézanne.
Ao atravessar a entrada do Grand Palais, somos imediatamente envolvidos não só por uma obra de grande dimensão, mas também pela luz natural que entra pelo telhado de vidro. Essa luz cruza o espaço de exposição, reveste os painéis de madeira onde repousam textos descritivos e expõe as obras com uma luminosidade natural.
As instalações de Ernesto Neto convidam-nos a mergulhar num universo sensorial: tecido, formas orgânicas, cores suaves e, sobretudo, instrumentos de percussão aos quais o público pode dar vida, criando a própria música. “Nosso Barco Tambor Terra” usa mais de 5,7 quilómetros de tecido brasileiro. O som ecoa no espaço, e de repente cada um de nós é parte integrante da obra, transformando a contemplação em participação activa.
“O tambor originalmente é feito de um tronco de árvore com uma pele de animal. É a mistura do vegetal com o animal. Acho isso uma coisa muito linda”, descreve Ernesto Neto à jornalista Patrícia Moribe, acrescentando que o "nosso corpo tem um tambor que é o coração. Tum tum, tum tum. É ele que está a bater aqui".
Mais do que uma instalação, a obra de Ernesto Neto parece representar um ritual. Os visitantes percorrem a obra como se percorressem uma clareira ancestral. Não há distância entre arte e corpo, há presença. O artista brasileiro lembra que a floresta “é a multi-natureza, é a vida, é ela que limpa o universo” e sublinha que "somos filhos de mães indígenas, de mães africanas que chegaram escravizadas. Somos frutos de uma transformação. E o conhecimento que nos resta é colectivo: é afro-indígena, é sabedoria de bem viver", conclui.
Na exposição "Horizontes", lemos o nome de Marina Perez Simão, nascida em 1980 e residente em São Paulo. A artista brasileira partilha um ensaio visual, onde revela pinturas de cor intensa, cenários interiores. A exposição ocupa um recanto de luz diáfana, onde os campos de cor parecem pulsar, multiplicando-se sob o efeito dos raios solares que atravessam o telhado envidraçado. A entrada gratuita da exposição apresenta-se como um gesto de democratização: basta entrar e estar presente.
Atravessamos Paris, do outro lado do rio Sena, chegamos ao Musée d’Orsay. Subindo o elevador, passando pelos corredores. No quinto piso, surgem quadros de Lucas Arruda. Não apenas expostos, mas estrategicamente posicionado no meio da galeria impressionista, ao lado de Monet, Cézanne, Corot, grandes nomes do impressionismo que imprimiram o imaginário da pintura de paisagem. O trabalho de Lucas Arruda, rotulado “Qu’importe le paysage”, que importa a paisagem, não retrata lugares reais: são paisagens que se revelam pela névoa, pelo mistério, por horizontes indefinidos. As obras parecem “familiares”, embora sejam imaginadas.
“Fiquei muito feliz, mas também ansioso. Tive medo de parecer pretensioso”, confessa Lucas Arruda questionado por Patricia Moribe quanto à preparação da exposição. “Aos poucos fui entendendo que não se tratava de confronto, mas de continuidade. E isso trouxe-me alegria. A ideia de que alguém hoje ainda olha para a luz, para a paisagem, e continua a construir”, descreve.
Lucas Arruda escolheu cada tela com cuidado. Algumas vieram da sua própria colecção, outras foram pensadas como espelhos invertidos das obras à sua volta. “Coloquei cinco ‘matas’ em resposta às cinco catedrais. Pensei no monocromo como lugar sem centro, só sensação, só luz. E procurei criar pontes, como com as obras de Théodore Rousseau, que eu sinto tão próximas do que faço", explicou.
Neste altar pictórico, o impacto é imediato e Lucas Arruda surge como uma nova voz, uma voz que questiona, que dialoga e reorganiza. Num museu dedicado ao tempo, a presença do artista brasileiro é travessia: de um Brasil interno, poético, contido, a um legado europeu secular.
No final destas duas atmosferas: a travessia é física, sensorial e poética. Trata-se de um convite do Brasil a Paris para revisitar a paisagem, a memória, o ritmo e o toque. Nos dois museus, a arte brasileira revela-se como presença viva e capaz de iluminar não apenas os olhos dos visitantes, mas também os espaços históricos da cidade.
Até ao final do mês de Junho, o espaço POUSH, em Aubervilliers, arredores de Paris, acolhe o trabalho da artista moçambicana Lizette Chirrime, que desenvolveu a instalação “Lost Identity”. O feminino é um eixo central no trabalho de Lizette Chirrime que vê a mulher como a “magia do mundo”, mas acredita que lhe falta espaço para se expressar e para libertar essa força.
Até ao final do mês de Junho, o espaço POUSH, acolhe o trabalho da artista moçambicana Lizette Chirrime. Uma residência artística em Paris, no âmbito da iniciativa Gulbenkian & Thanks for Nothing – Criação e Compromisso, promovida pela Fundação Calouste Gulbenkian e pela associação francesa Thanks for Nothing e que conta com a parceria do Centre Pompidou e da KADIST (organização dedicada à arte contemporânea). A iniciativa distingue artistas cujas práticas abordam temáticas sociais e ambientais, incentivando ainda a inclusão de públicos afastados da cultura.
Na capital francesa, a artista moçambicana desenvolveu a instalação “Lost Identity” (“Identidade Perdida”) criada a partir de materiais reutilizados dos workshops que conduziu no Centre Pompidou com mulheres em situação de vulnerabilidade – vítimas de violência doméstica, com doenças crónicas –, jovens com síndrome de Down e estudantes. O exercício consistia em criar dois corações: um para depositar tudo o que é negativo, outro para encher de energia positiva.
“Havia mensagens muito assustadoras”, contou à RFI Lizette Chirrime, que decidiu reaproveitar todo esse material e transformá-lo numa instalação agora patente no POUSH, onde se podem ver os tubos que contêm todas as mensagens recolhidas, formando casulos, numa alusão ao processo de transformação das larvas em borboletas, como “uma forma de começo da cura”.
Embora nascida de um processo colectivo, a obra é também autobiográfica: “É minha, é das senhoras, é de muita gente. É um problema global: a perda da identidade. O facto de permitirmos que nos abusem ou nos maltratem é porque, em algum momento, nos esquecemos de quem somos”, afirma. A instalação é, assim, uma espécie de espelho partilhado, onde a dor, a cura e a transformação coexistem.
Sobre a residência artística em Paris, Lizette Chirrime acredita que “foi o universo que conspirou a meu favor e mandou esta luz para o meu túnel.”
Para pagar as contas, Chirrime tem de conciliar o lado artístico com o design de moda: “Sou mãe solteira e vivo num país onde a arte não é reconhecida. Faço muito esforço para continuar. Mal consigo pagar as contas. Já estive muito doente, mas recuperei.”
O feminino é um eixo central no trabalho de Lizette Chirrime que vê a mulher como a “magia do mundo”, mas acredita que lhe falta espaço para se expressar e para libertar essa força. “Uso a minha voz para dar voz a essas mulheres sem voz”, explica. Mas não é só na questão social que se centra: o seu trabalho também incorpora uma forte consciência ambiental. “Nós sujamos o planeta com o nosso consumismo. Eu decidi fazer a minha parte.”
Ser artista e mulher em Moçambique continua a ser um desafio imenso. Apesar de avanços, as condições continuam precárias: “Muitas desistem porque é muito doloroso. Às vezes considero-me uma maluca em continuar, mas não tenho escolha, porque a arte me escolheu.”
Com oito áreas marinhas protegidas acabadas de serem criadas e designado para sediar o secretariado da Economia Azul da CEEAC, São Tomé e Príncipe reforça a política nacional e regional na preservação dos oceanos. Todavia, soluções globais só terão sucesso se respeitarem as especificidades locais, disse em entrevista à RFI a ministra do Ambiente, Juventude e Turismo Sustentável, Nilda Borges da Mata, durante a 3.ª Conferência das Nações Unidas sobre o Oceano (UNOC3), em Nice, França.
A ministra destacou que os Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento, como São Tomé e Príncipe, enfrentam vulnerabilidades particulares que não podem ser ignoradas nas decisões internacionais. A subida do nível do mar, a erosão costeira e a crescente escassez de pescado estão a afectar directamente as comunidades locais e a comprometer a segurança alimentar nacional. Neste contexto, insistiu que qualquer solução global para a preservação do oceano deve ser moldada em função das realidades e capacidades de cada país.
Os nossos oceanos estão em risco, mas não somos todos iguais. Um pequeno Estado insular como São Tomé e Príncipe tem as suas especificidades. As soluções têm de ir ao encontro das necessidades concretas de cada país.
Temos vindo a perder território e já estamos a retirar populações das zonas de maior risco, criando zonas de expansão seguras, urbanizadas com escolas e centros de saúde.
Nilda Borges da Mata alertou também para a pressão sobre os recursos marinhos causada pela pesca industrial e ilegal. Apesar de São Tomé e Príncipe ter acordos de pesca com a União Europeia, a falta de capacidade para monitorizar essas actividades deixa espaço para abusos e compromete os esforços de conservação.
Não temos meios para uma fiscalização frequente. Dependemos muito da ajuda de parceiros, mas essa fiscalização não pode ser pontual, tem de ser frequente.
Há barcos que entram na nossa Zona Exclusiva sem autorização, fazem pesca ilegal e utilizam equipamentos que podem pôr em causa os nossos recursos.
Os nossos pescadores, a maioria artesanais, nos últimos tempos não têm conseguido obter o pescado [junto da costa] e são forçados a ir cada vez mais longe para garantir o sustento das suas famílias e a nossa alimentação.
Recentemente foi aprovado pelo Conselho de Ministros o decreto de lei que cria as primeiras oito Áreas Marinhas Protegidas de São Tomé e Príncipe, a publicação em diário da república deve acontecer brevemente. A criação das Áreas Marinhas Protegidas exige acompanhamento e envolvimento da população.
Há zonas com protecção total e outras com protecção parcial, que permitem a pesca sustentável.
É crucial comunicar bem esta diferença às comunidades, para que não vejam estas medidas como uma ameaça ao seu modo de vida, mas como uma forma de o preservar.
As Áreas Marinhas Protegidas (AMP) agora anunciadas abrangem cerca de 93 km². Seis localizam-se na ilha do Príncipe e duas em São Tomé e constituem um marco importante rumo ao objectivo global de proteger 30% da terra e do mar até 2030.
As novas AMP incluem zonas de protecção total, onde é proibida qualquer actividade extractiva, e zonas de uso sustentável, destinadas exclusivamente à pesca artesanal. Espécies como tartarugas marinhas, tubarões e raias-manta serão directamente beneficiadas.
A recente designação de São Tomé e Príncipe como sede do secretariado da Economia Azul da Comunidade Económica dos Estados da África Central (CEEAC) foi considerada pela ministra como um reconhecimento do potencial do país e uma oportunidade para aprofundar a investigação científica na região.
Com a nossa biodiversidade e vulnerabilidade, precisamos de dados concretos para orientar políticas públicas.
A 3.ª Conferência das Nações Unidas sobre os Oceanos (UNOC3) decorre até sexta-feira, 13 de Junho, em Nice, França.
A artista leiriense Inês Condeço inaugurou, no passado dia 20 de Maio, o ciclo “Mardis en Musique”, na Casa de Portugal André Gouveia, na cidade Universitária de Paris. A sua performance foi mais do que um concerto: foi uma viagem sensorial onde se cruzam piano, voz e electrónica, guiada por uma forte componente de improvisação e uma procura por novas sonoridades.
Natural de Leiria, Inês Condeço tem vindo a construir um percurso singular, assente na improvisação e na experimentação sonora. “A música começa nas emoções”, explica. “Tento transpor isso para o som, não só através do piano, que me é mais familiar, mas também da electrónica e da minha voz, que comecei a explorar na pandemia", acrescenta.
Foi durante esse período de isolamento que Inês Condeço se aproximou da eletrónica: “Comecei a ouvir muita música electrónica e a experimentar com sintetizadores. A improvisação já fazia parte de mim desde criança, e essa curiosidade levou-me a uma sonoridade que, ao início, nem me parecia óbvia, mas que acabou por se tornar muito minha”.
A fusão de linguagens; do clássico à eletrónica, não é um exercício de rótulos, mas uma forma de escuta e de expressão. A identidade artística, para Inês Condeço, não se constrói com a intenção de ser diferente, mas com autenticidade: “O mais interessante é fazermos algo com o qual nos identificamos genuinamente. Se isso nos diferencia ou não, já não é o mais importante”, defende.
Essa autenticidade sente-se nos seus concertos, muitas vezes compostos por peças improvisadas, moldadas pelo ambiente e pela energia do público: “O que tenho feito nos últimos concertos é uma viagem que 90% é improvisada. Tento perceber a sala, a cidade, a atmosfera. Em Paris, levo também o que estou a absorver daqui”.
Improvisar em palco é, para Inês, tanto um desafio como uma necessidade. “Gosto mesmo dessa folha em branco”, afirma. “Estar em palco já é um risco por si só, mas gosto de aproveitar estas oportunidades entre álbuns para explorar e treinar a forma de estar em cena, resolver problemas em tempo real”, descreve.
Sobre a relação com o público e a perceção de que a electrónica pode parecer distante ou fria, Inês é clara: “A voz é o elemento mais humano que podemos utilizar. Cria uma ponte entre o mundo electrónico e algo mais orgânico, como o piano. Eu não vejo a eletrónica como fria, vejo-a como muito rica e expressiva”.
Os seus concertos são descritos como “viagens sonoras” por quem os presencia, mesmo por quem não está habituado a ouvir música electrónica. “O importante é que haja uma disponibilidade emocional para seguir essa viagem”, diz, sem esconder o entusiasmo por um género que considera essencial ao seu caminho criativo.
A actuação em Paris representou um passo importante na sua internacionalização, algo que vê com naturalidade e entusiasmo. “Tocar numa cidade como Paris é uma oportunidade incrível. Estar em contacto com outras culturas e experiências enriquece sempre: a nós e à nossa música”, explicou.
O futuro inclui um segundo álbum já em desenvolvimento, que promete acentuar ainda mais o contraste e a expressividade da sua estética sonora. “Sinto que agora tenho mais recursos, mais ideias. O próximo álbum vai ter mais electrónica, mais piano e a voz manipulada de uma forma diferente. Vai ser ainda mais contrastante e, acima de tudo, ainda mais meu”, concluiu.
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