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Muitas pessoas que já me incomodaram profundamente, hoje são só uma fotografia desbotada no fundo do armário. Várias paixões que eu achei que fossem me engolir, hoje forçam a minha memória: qual era mesmo o nome? Várias amigos com quem dividi o choro e ri a mesma alegria, hoje não sei como estão. Várias situações que pareciam ondas de dois metros, hoje não passam de poças d'água. A vida passa, a gente passa, e tudo passa também. Ver as minhas fotos antigas me faz olhar com mais ternura para o presente. E saber: isso aqui - tudo isso aqui - um dia vai passar também. Que bom. E que pena.
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Teve um tempo em que eu dizia “não” para muitas coisas, porque eu sempre achava que eu não estava pronta. E aí teve um dia que eu comecei a me dar conta dessas armadilhas que eu mesma criava para mim e, ao longo de um processo intenso de autoconhecimento que nunca acaba, eu comecei a dizer “sim” para as coisas que antes eu dizia “não’. Só que aí, eu percebi que tinha um terceiro degrau dessa escada, que era o melhor de todos. O terceiro degrau é aquele em que a gente sai da imposição do “sim” e do “não” para viver a liberdade que mora entre essas duas palavras. No terceiro degrau, a gente tem a chance de discernir o que a gente, realmente, quer encarar, viver, elaborar, dizer sim e aquilo que, mesmo que tenha uma torcida a favor, a nossa resposta é “não”. Mas eu levei um tempo para entender isso. E a busca por essa compreensão, me fez encontrar várias outras coisas nessa escada.
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Se eu fizesse uma lista dos temas mais pedidos nesta mesa de bar, esse, certamente, estaria entre os cinco. e a verdade é que eu sempre considerei trazê-lo aqui, mas eu estava esperando o tempo da piscina. Você sabe como é o tempo da piscina? Ele tem a ver com aquela imagem de um dia de verão. Dentro da piscina tá a vizinha de cima, o vizinho de baixo, o seu primo de terceiro grau, a sua amiga da escola, aquela colega de trabalho. Para eles, a água tá na barriga, na canela, no ombro, no cotovelo, mas para você, não dá pé.
E aí – sentado na beirada da piscina – você tem que fazer uma coisa que é difícil – e importante: olhar para a sua própria história e assumir que o teu processo é único. E que o tempo dele também é. Para fazer esse episódio, eu fiz uma escolha bonita: eu esperei o tempo da piscina. Eu esperei a água bater na minha barriga. Eu esperei dar pé. E deu. E agora, eu quero te fazer companhia nessa espera, independentemente de qual seja o teu processo ou teu lugar na piscina. Cê vem?
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Eu não sei o que acontece na Marginal Tietê, eu só sei que quando o trânsito parou, a minha cabeça parou junto. Eu estava de novo abrindo o microfone, pedindo a palavra e falando uma coisa que, minutos depois, eu ia me arrepender. E ia, não pelo que eu tinha dito, mas pela sensação de inadequação gigante que ia tomar o meu peito no instante seguinte. A verdade é que eu tinha calculado mal a profundidade. Eu achei que o chão estava muito mais para baixo do que ele realmente estava. E aí a sensação que veio foi aquela da piada que a gente conta e ninguém ri. Ou daquela declaração de amor que a gente faz e fica no vácuo. Ou ainda daquela coisa profunda que a gente sente, capta compartilha, mas ninguém entende. A sensação foi a de ter dito uma coisa na certeza de que aquilo ia encontrar conexão, mas o que rolou foi só um eco. E deu vontade de apagar, editar, recortar e apagar aquele momento. Mas não deu. E foi só porque não deu que eu consegui traçar um caminho libertador em meio a minha culpa.
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Esses dias eu peguei o meu caderno no fundo do armário e percebi que a folha de adesivos, aquela que tem na primeira página, está quase inteira, eu não usei. E isso me levou pra adolescência, porque na adolescência ninguém usava os adesivos da primeira folha, tinha que ter um momento especial. Acontece que quase sempre esse momento especial – que tinha a cobrança de ser muito especial – não acontecia ou quando acontecia, a gente esquecia que era especial e não colava o adesivo lá, na folha. E aí chegava o fim do ano e o caderno ia para gaveta ou pro armário ou para embaixo da cama e a gente perdia todos os adesivos especiais, sem perceber o momento de usá-los. E dava uma sensação de desperdício, de atraso, de pq eu não colei antes? quase sempre. Eu tenho pensado demais nos meus adesivos. Nesses que a gente vai adiando a hora de usar e, quando percebe, já passou o tempo. E é por causa disso que o episódio de hoje é um convite para você fincar comigo os dois pés no agora.
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Esses dias, tomada por um cansaço existencial, eu fiz uma lista das coisas que eu queria me desprender. Enquanto escrevia, eu escutei um sussurro que dizia: "agora coloca esse papel em um copo com água." Levantei e fui para cozinha, sem saber exatamente o porquê. O copo seguiu intacto e eu demorei três dias para entender. O papel não se dissolve no primeiro contato com a água. As minhas ânsias, os meus desejos, as minhas pressas, angústias e ansiedades também não. Para algo rígido se desfazer, leva tempo. A gente também.
Todo mundo tem um eu ideal. E o nosso conflito nasce quando a gente, de repente, se dá conta de que a gente não corresponde a ele.
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Nossa ideia de amor adora uma fantasia. E com ela é muito melhor sonhar com alguém que vai chegar num cavalo branco, num exame de DNA ou numa promessa de almas entrelaçadas do que arregaçar as mangas e tentar construir uma relação com quem tá ali.
Histórias mágicas negligenciam uma verdade simples, mas decisiva: relações saudáveis são muito parecidas com plantas vivas, elas demandam atenção, cuidado, paciência e vontade, coisas que a sombra de um amor produzido nos contos de fadas não permite a gente assumir.
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Me dou alguns silêncios. É sempre na ânsia de calar a minha voz interna, mas sempre acontece o contrário. Depois de um tempo, escuto mais. É aquela coisa do quarto escuro. Quando a gente entra, parece muito, muito escuro, mas depois as coisas vão ganhando formas. A cadeira, a cômoda, o armário. Tudo sempre esteve ali, mas no escuro e no barulho, a gente não vê. e não ouve. tudo parece breu. então é preciso tirar um tempo interno para conseguir enxergar as coisas que sempre estiveram ali, mas se perderam no barulho. o silêncio é assim para mim, tipo um quarto escuro, mas clareia.
A primeira vez que eu senti aquela frustração eu tinha uns dez anos. Eu estava brincando na gangorra e sopraram no meu ouvido que a Gabriela tava chorando. Antes de entender exatamente o motivo, eu saí correndo, largando a minha brincadeira, e fui ao encontro dela, decidida a “resolver” aquela tristeza. Ela tava sentada no banco da quadra e me contou que tinha brigado feio com o irmão e, por isso, tava muito triste. Eu ouvi tudo e despejei todas as boas palavras que eu tinha para cumprir a missão Impossível que eu me dei antes de descer do balanço: arrancar um sorriso do rosto da Gabriela. Mas mesmo depois de me sentir esgotada, ela ainda continuou triste e eu, de um jeito novo, frustrada. A minha versão de dez anos não sabia, mas a mesma cena aconteceria algumas vezes anos mais tarde para que eu percebesse o lado não dito da jornada dos heróis: eles não reconhecem os próprios limites.
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