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Depois de toda dor genuína, ficou só um ego ferido. O misto de tristeza e raiva que me invadiam depois daquele meio dia, não eram mais causados pelo sofrimento inicial, mas pelo ressentimento de não ter sido escolhida. Nem era mais sobre o outro, era só uma mini revolta por sentir que não tinham confirmado a imagem que eu, mesma, cultuava de mim.”
Texto: @natyops identidade visual: @amandafogaça edição @valdersouza1
Esse é o mar de agora, navegue do jeito que der. Foi essa frase que eu anotei no bloco de notas do celular domingo de manhã. Enquanto eu tentava achar um brócolis com cor de brócolis, na minha cabeça tava rolando o sexto disco da autocobrança futebol music – uma banda de um hit só que canta todas as noites que eu deveria ter feito mais, que eu deveria ter rendido melhor, que eu deveria ter passado mais tempo no sol, porque, sim, além de me cobrar produtividade na produtividade, minha autocobrança me cobra produtividade no ócio. Acontece que eu tava num dia bom e, quando minha cabeça começou a terceira lista de deveres não cumpridos, eu me disse: Natália; esse é o mar, navegue do jeito que der. E aquilo para mim foi importante demais, porque se a realidade de hoje é um mar revolto, para conseguir navegar bem, eu preciso olhar para os pesos do meu barco.
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Vulnerabilidade, para mim, é aquele quarto bagunçado que a gente tranca quando a visita chega, sabe? A gente sabe que ele existe, mas a gente não quer que ninguém veja, porque ele é o símbolo que a gente não é tão perfeito, tão alinhado, tão ajustado, tão descolado, tão descontraído ou tão organizado quanto a gente se diz ser. O quarto bagunçado, a gente pensa, ameaça à nossa imagem. Então quando a visita chega, a gente o tranca e finge que ele não existe. E esse é o problema: fugir do nosso quarto bagunçado não nos deixa mais fortes, pelo contrário, nos priva de viver a vida de um jeito inteiro.
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A existência pode ser maior do que um conjunto de coisas conhecidas.
Eu lembrei de uma conversa que eu tive com um grande amigo anos atrás. Depois de contar para ele sobre uma saia justa que eu tinha vivido, ele me disse: "eu acho que você deve deixar esse constrangimento para quem o causou". E isso me marcou de um jeito fundo, porque ele tinha razão. Hoje, anos depois, vendo o "BBB", talvez seja isso que eu gostaria de dizer para Carla: "deixe o constrangimento para quem o causou. Deixe o constrangimento para quem não foi verdadeiro, sincero, honesto com você." E quando sair da casa, e quando se der conta de que poderia ter rompido antes, mergulhe nisso. Se pergunte, se questione, se entenda, use isso pra crescer, mas escape desse constrangimento que tentam colocar em cima de quem já está lidando com uma situação suficientemente desestabilizante. Olhe para isso, mas não assuma um constrangimento que não foi você que causou." E quando fizer isso, perceberá o quanto pode ser grande. E livre chama oszamigues e vem? te espero 00h01 no @deezer @spotify e agregadores. | edição @valdersouza1 identidade visual @amandafogaça texto @natyops
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Tava todo mundo produzindo. Fazendo academia no quarto, escritório na sala, aula de inglês na cozinha, tocando violino na varanda. Eu não. Eu tava ali, virando de posição na cadeira, tentando e fracassando na entrega de um texto que já estava atrasado. No décimo gole de café, uma música começou a tocar na rua de cima. Por cima dela, um cara disse: “essa vai para a fulana de tal”. Na primeira música, eu lembrei que o prazo não era tão urgente e, quando eu vi, eu tava ali debruçada na janela de casa, acendendo e apagando a luz do apartamento como o moço do microfone tava pedindo. De repente, eu era parte de um pisca-pisca infinito e desconhecido. Éramos coro numa declaração de amor em vida que durou quinze minutos, mas ainda me ecoa nesse março do ano seguinte. Naquele dia, no meio de uma pandemia que só estava começando, eu ia aprender que as pequenas coisas não nos leva pra grandes lugares, mas nos dão sentido para atravessar os dias difíceis.
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Uma vez, numa conversa, uma moça me disse algo mais ou menos assim: "a sensação que eu tenho, é que a minha autoestima é uma mesa, só que é uma mesa de três pernas. A quarta perna que me falta, eu fico buscando nas minhas relações.
Quando encontro alguém, eu coloco a relação no lugar da quarta perna. Então estabeleço uma relação de dependência com aquela pessoa, sufoco, me excedo para que ela não vá embora, porque se ela for, eu volto a ser uma mesa de três pernas".
Ela me disse isso logo depois do episódio sobre autoestima que tem aqui nesse podcast. Eu achei foda essa imagem que ela trouxe, porque muitos processos de ressignificação, de despertar, de cura passam por esse lugar: o de dar forma àquilo que a gente sente. Mas essa conversa ficou no passado, pelo menos eu achei que tinha ficado, até que a imagem da mesa de três pernas estacionou numa sexta-feira quase noite na minha cabeça. E quando estacionou, eu entendi bastante coisa sobre aquele momento.
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Em tempos em que todo mundo pode editar, costurar, recortar a própria vida e só mostrar o melhor, é muito fácil acreditar que o negócio tá fora. É muito fácil esquecer que toda mudança significativa, só é, de fato, efetiva, quando ela acontece do lado de dentro. E é, justamente, por isso que eu amo autoconhecimento. Porque o autoconhecimento me chacoalha quando eu preciso e me lembra que o grande lance da vida não é encontrar um lugar confortável do lado de fora, mas abrir esse espaço do lado de dentro.
Lembro da Eliane Brum falando sobre isso em um texto. Já comentei disso aqui. Ela trabalhava há anos na Revista Época, mas chegou um momento que ela entendeu que ali não era mais o lugar dela. Queria mudar. Lembro dela dizer neste texto que ela não queria saber como seria a vida nos cinco anos seguintes, então ela precisava mudar o que ela tinha feito nos últimos dez. Então, ela foi e pediu demissão para fazer algo que ela ainda não sabia o que era, mas estava disposta a descobrir. Acontece que, antes mesmo de tentar, algumas pessoas insistiam, ainda que veladamente, para que ela confessasse uma saudade da vida anterior. A mudança dela, os incomodava. E quando algo nos incomoda muito no outro, é bem provável que aquilo não seja sobre o outro, mas sobre a gente. Nem todo mundo se dava conta disso e a criticavam. E lidar com crítica é desconfortável. E, de verdade, eu não sei se um dia deixa de ser. Mas o que eu sei é que dá aprender coisas muito legais sobre a gente, mesmo, quando ela acontece. E eu só sei disso, por causa de uma crítica que eu recebi.
Esses dias, vendo "This is Us" uma das personagens disse para mãe: “eu só queria que alguém me dissesse que a minha decisão está certa”. Ela estava vivendo um processo longo, difícil, desafiador, cujo apoio das pessoas próximas era raro. E inconstante. Quando ouviu o lamento, a mãe só deu um sorriso contido e apoiou a cabeça no encosto do carro em silêncio, como se dissesse: “ninguém pode te dizer isso, porque a vida é sua e quem está segurando o mastro do navio é você”. Os capítulos seguiram, mas eu continuei sequestrada por essa cena, porque ela me lembrou da vez em que eu mandei um e-mail urgente e angustiado. E o que seguiu depois, me fez crescer de um jeito completamente inesperado.
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