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Hoje eu me peguei pensando nisso: quantas vezes eu não disse o que eu queria dizer, não fiz o que eu queria fazer, não demonstrei, não me manifestei, não fui quem eu queria ser em nome de uma regra que eu mesma criei - ou que me ensinaram - e que eu não tive coragem de quebrar. Quantas vezes eu me transformei em algo sem marcas, sem rastros, sem nome, sem identidade, sem pulsão, sem emoção...quantas vezes eu deixei de escrever a minha própria história, de viver a minha própria história por medo da rejeição.
Eu lembro que eu respirei fundo antes de entrar na sala do meu diretor para pedir demissão. O medo de pisar com os dois pés em um lugar desconhecido, tava ali, comendo meu corpo por dentro. Surpreso, ele me pediu mais detalhes do programa que eu tava pronta para migrar e disse, num tom paternal, para eu pensar com calma, já que novos projetos são sempre incertos. Não dava para ter certeza do que aconteceria. Eu lembro que eu senti mais medo ainda, porque todos os alertas dele me pareciam ser sobre perigos reais, mas algo dentro de mim não me deixava desistir. Com o choro entalado na garganta, falei: “eu agradeço e concordo, mas eu preciso tentar.” O que aconteceu depois, ninguém esperava.
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Identidade visual: @amandafogaca // edição @valdersouza1 // texto e voz: @natyops
Eu não sei se você já sentiu isso. Mas uma vez eu entrei no consultório da Renata confessando uma apatia, um bode interno, uma sensação de que nada poderia me surpreender com tanta força mais. Um sentimento de que tudo tinha virado domingo à tarde, vendo Faustão, sabe? Uma mornidão, uma preguiça, uma previsibilidade grande, um segunda a sexta paga boleto, responde e-mail, não perde o ônibus, recolhe a correspondência. Uma parada sem muita expectativa. Eu não lembro exatamente o que aconteceu depois daquelas semanas, mas eu voltei a pensar nisso nesse domingo, enquanto eu experimentava uma alegria leve por perceber que, talvez, o problema de anos atrás não estivesse na vida, mas no modo que eu olhava para ela.
Eu não sei você, mas eu não tenho um colete a prova de balas de comparações. Eu me comparo. E vejo a minha energia escorrer para fora do corpo, como uma torneira aberta, toda vez que eu faço isso. Mas na semana passada, eu me dei conta de uma coisa importante: a comparação não é só inútil, ela é também perigosa, porque nos arrasta para longe do único lugar em que a gente pode ser significativamente feliz: a nossa vida.
Acho que um dos exercícios mais importantes para quem trilha a jornada do autoconhecimento é se perguntar: o que eu quero com aquilo que eu quero? Porque às vezes a gente não quer ser astro de rock, a gente só quer ser popular. Às vezes a gente não quer ser monge, a gente só não quer sofrer tanto. Às vezes a gente não quer uma relação, a gente só quer ter alguém pra levar na festa. Às vezes a gente não quer se isolar, a gente só não quer lidar com a rejeição. E embora seja incômodo esse autoquestionamento, ele pode, certamente, nos levar mais para perto da gente mesmo.
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A edição é do @valdersouza1 a identidade visual da @amandafogaca e os textos/histórias/voz minhas, @natyops posso te pedir uma gentileza com jeitinho? Se você gostar, você manda para alguém que você ama? ❤️
As cercas são ótimas para dar contorno e segurança, mas elas não fazem só isso. As cercam nos privam de viver coisas novas, de experimentar novos espaços. Às vezes a gente cresceu, a vida cresceu, as coisas mudaram, e a gente não se permite crescer, mudar e expandir junto com a vida, porque elas não deixam. A gente mesmo não se deixa. E aí é preciso lembrar que uma experiência ruim não precisa definir a nossa vida inteira. Uma percepção sobre a vida não precisa ser a mesma até o fim dela. Inteireza, para mim, tem sido cada vez mais isso: me permitir ser tudo que eu posso ser. E chamo isso de inteireza, porque eu sou as minhas rejeições, mas sou também todas as vezes em que eu fui amada. Eu sou os meus tombos, mas sou também todas as vezes em que eu acertei o passo. Eu sou as minhas raízes, mas sou também as minhas asas. Eu sou as minhas dores, mas também sou a minha cura. Mas pra me reconhecer em todos os meus tamanhos, em todas as minhas versões, eu preciso me deixar ser tudo que eu posso ser. Ou seja: eu preciso questionar, vez outra, as minhas cercas.
Trilha sonora : "Stranger Noises"
Eu sempre acho que dá para ir mais um pouco, fazer mais um pouco, entregar mais um pouco, trabalhar mais um pouco. Tenho dificuldade com as pausas, no fundo, acho que elas adiam o destino. Mas isso está mudando, porque, aos poucos, tenho aprendido que aprender a descansar é o que muitas vezes sustenta o caminho.
Segurança, para mim, tem a ver com o lugar em que a gente coloca a nossa âncora, sabe? Âncora para mim é a representação da nossa verdade, da nossa intuição, da nossa auto percepção e da nossa sustentação. E às vezes, de tempos em tempos, eu preciso me perguntar, por onde anda a minha âncora. Nessas buscas, tem sido natural perceber que em dias de insegurança, ela tá sempre longe da minha essência, da minha verdade e daquilo que, verdadeiramente, importa para mim.
No primeiro ano da faculdade, o professor contou uma história: “se um cachorro morde uma pessoa, não é notícia. Mas se a pessoa morde o cachorro, aí é”. Antes de gravar esse episódio, lembrei dessa história e me perguntei: por qual razão algo tão banal, comum, rotineiro, como fazer uma comida, sentar à mesa, olhar a textura do macarrão, mastigar com calma, sentir o gosto, engolir sem pressa, valeria um episódio nesse podcast? E a resposta foi uma constatação: porque eu tenho me esquecido dia após dia a importância disso.
Às vezes a gente se matricula na aula de dança hoje e já quer ser o melhor da classe amanhã, às vezes a gente se matricula na aula de línguas ontem e já quer ser poliglota no dia seguinte, às vezes a gente lança um projeto anteontem e já quer que daqui a pouco seja um sucesso, às vezes a gente entra na sala da terapia com um problema de anos e quer sair curado em uma hora, às vezes a gente espera coisas da vida que a vida não pode dar. Eu não percebi na hora, mas o que a Elza estava me dizendo era isso: esse milagre que você quer, a gente vai ter que fazer acontecer juntas, um dia de cada vez, um passo depois do outro, com muita paciência, com muita generosidade, com muita gentileza e com muito cuidado. E talvez demore. E se você quiser realmente isso, você vai precisar abrir mão da pressa.
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