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Eu fiquei com vontade de dizer pra aquela pessoa, tudo que eu aprendi, quando eu afundei na areia movediça. E o que eu aprendi foi que eu preciso ser capaz de frustrar as pessoas, de vez em quando, inclusive as que eu mais amo, porque se eu não for capaz de fazer isso, eu não serei capaz de respeitar os meus limites. Se eu não for capaz de frustrar as pessoas, eu também não serei capaz de atender as minhas próprias necessidades quando eu preciso. Se eu não for capaz de frustrar as pessoas – inclusive as que eu mais amo – eu sempre vou sair em momentos que eu queria ficar em casa, dizer “sim” paraquela coisa que meu corpo inteiro tá gritando que é “não”, responder àquela mensagem bem naquela hora que eu tinha combinado comigo mesma de mergulhar em silêncio. E isso não tem a ver com ser egoísta, mas com a convicção de que eu só posso ser presente, verdadeiramente, na vida do outro, se antes eu puder fazer isso por mim mesma.
O que a gente deveria problematizar não é a intensidade dos intensos e nem a não-intensidade dos não-intensos, mas como artimanhas, os jogos e as armadilhas que a gente constrói para gente mesmo para não viver o amor, para não se permitir sentir. Tá tudo bem ser intenso. Tá tudo bem em não ser. O que não tá, é se espremer para caber. Ou fingir que não sente para se vangloriar.
Ali, sentada, olhando para aquele muro, uma sensação de completude esparramou no meu peito. Uma sensação de que eu estava me reconciliando, de novo, com o tempo: ele passa. As coisas passam. Tudo se transforma. Mas uma coisa permanece: a decisão de ir comigo, no meu passo, do meu lado, na minha companhia, até o fim. Talvez, então, equilíbrio seja isso, não é sobre não cair, mas sobre aprender como se levantar.
Eu tinha imaginado uma outra coisa para aquele momento. Eu imaginava que eu ia entrar naquela sala com a cabeça erguida, o tronco ereto, a voz firme. Mas, de repente, eu estava com as mãos afundadas no rosto, dizendo: “eu não acredito que eu perdi o controle das minhas emoções, eu não acredito.” Para alcançar a cura, a gente precisa, antes, aceitar que adoeceu. Para superar o término a gente precisa, antes, aceitar que o amor não aconteceu. Para fazer as pazes com a nossa história, a gente precisa, antes, aceitar, tudo o que aconteceu. E aí, só aí, estaremos prontos para transformar: a vida e a gente.
Quando eu atravessei o portão branco, minhas costas contraíram de tensão. Ser livre, então, era isso: ser responsável pela própria vida, pensar com a própria cabeça, assumir as próprias decisões. Ser melhor, então, era isso: revisitar as definições oferecidas. Questioná-las. Não dar o mundo como visto, antes de vê-lo, de senti-lo, de experimentá-lo, de enxergá-lo com os próprios olhos. Dar às coisas, os próprios nomes. Ser dono da própria história era, então, bancar os caminhos do próprio coração. Era ser capaz de sair do carro, dizendo: “me deixa tentar. Se der tudo errado, eu assumo. Eu preciso tentar.” E, mesmo sem saber, e mesmo sem querer, e mesmo sem prever, ser o assunto da conversa e (da mudança de perspectiva) do meu pai, vinte anos mais tarde. Naquele dia, eu revisitaria aquele tempo e, diante de outra questão, lembraria: é preciso sair das macrodefinições...para conhecer algo, muitas vezes, é preciso, antes, desconhecer.
O processo do luto não é linear, nem reto, nem plano, nem um caminho só para frente. Por muitas vezes, acordei e tive a sensação de que tudo que eu tinha andado, não existia mais. Dor absoluta como a primeira vez. Por muito tempo, parecia que a minha vida tinha sido envolvida por um véu cinza. Nada mais tinha cor, nem forma, nem sentido. Tudo tinha perdido a razão. Eu fazia compras, e ia trabalhar, e amoçava, e tomava banho, e parecia que nada me preenchia mais. E por isso, era impossível de acreditar naquela mensagem que eu tinha recebido logo no dia seguinte. Ela dizia: "agora parece impossível, mas uma hora a vida volta a ter cor." E hoje, eu posso dizer: demora. Demora um tempo. Demora bastante, mas volta, mesmo. Realmente volta. A sensação é que a gente foi quebrado ao meio e que não há cola capaz de juntar os pedaços. Mas a vida é soberana. Superior. Teimosa. E uma hora, a gente consegue acomodar o novo mundo dentro da gente e ser feliz de novo. Disso, eu tenho certeza.
Fazia tempo que eu não acordava e ficava olhando o teto até ele ficar cada vez mais branco. Fazia tempo que eu não deixava o meu corpo acordar sozinho, assim devagar, no meu dia de folga. Fazia tempo que eu não sentava na cadeira da cozinha com uma xícara de chá e com o olho pousado sem pressa no prédio da frente ia vendo as janelas mudarem de cor. Apagada, apagada, acendeu, acendeu, apagou, ligaram a teve, alguém apareceu na varanda. Fazia tempo que eu não esperava na fila do supermercado sem tentar distrair o meu tédio. Sustentando meu tédio. Fazia tempo que eu não lembrava que tá no silêncio que a gente não faz a maior parte das respostas que a gente procura. Fazia tempo que eu não dizia para minha angústia: essa pressa que você quer nas coisas não existe nas coisas da vida real. A vida real tem o próprio tempo e sendo você o tempo, você também.
A autocobrança é a voz que grita no meu peito toda vez que eu não cumpro com um ideal. Às vezes ela grita quando eu falho, às vezes quando eu não consigo dar cem por cento, às vezes quando eu me recuso a fazer coisas que a maioria faz, mas que não me preenche, às vezes quando eu não consigo ter o controle de determinada situação, às vezes - e principalmente agora - quando eu descanso. A autocobrança é a voz que não me deixa respirar tranquila. Quando eu deito na minha cama para ver uma série boba, cujo único objetivo é relaxar, o ela diz que eu não me exercitei, que eu não lavei a louça, que eu não fiz as aulas de graça de francês. Para desapertar, eu levanto da cama, deixo a série no meio e faço qualquer coisa - de lavar a louça a costurar aquela blusa que eu só vou usar de novo na próxima encarnação. O importante é fazer alguma coisa, porque a voz da autocobrança não aceita descansos, nem pausas, nem falhas, nem ócio, nem vazio. A autocobrança não pode me ver parar. A autocobrança é muito rígida.
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