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O apego não é um botão que a gente desliga. O apego é mais parecido com um molho de chaves que perdeu a utilidade. As chaves não abrem novas portas, mas a gente ainda segura. E segura porque foram essas chaves que nos deram acesso às casas antigas e, a gente sabe, de algum modo, que se desfazer dessas chaves é aceitar o fim. Acontece que segurar coisas que não servem mais, pesa. Machuca. Exige. E o pior: paralisa a nossa vida. Ocupa espaço. Para desapegar, a gente precisa soltar as chaves, uma por uma, várias vezes, todos os dias. Mas para soltar as chaves, muitas vezes, a gente precisa reconhecer, antes, o que essas portas significavam para gente. E aí, só aí, nos dar a chance de descobrir um novo jeito de seguir. Foi isso que eu precisei fazer aquele dia.
Como você está?, ela perguntou. E eu respondi: estranhamente calma, Renata. Estranhamente calma. Nos minutos seguintes tentei explicar o que era aquela sensação...aquela sensação de estar com a alma boiando na superfície da água, mas acabei só dizendo: é uma confiança, Renata...é uma confiança em mim, na vida...é uma confiança...é uma sensação de que vai dar pé...uma hora vai dar pé de novo. Nesse episódio eu conto os caminhos que eu fiz para alcançar um ponto de paz em meio ao caos.
Eu saquei naquele tempo que se eu desse um sentido para minha dor, ela poderia ser mais do que só a minha dor. Eu saquei naquele tempo que dar um sentido para as coisas que acontecem, faz com que cada coisa e cada tempo ganhe um sentido maior, um sentido que pode ser sagrado.
Hoje a gente fala muito de responsabilidade afetiva, mas parece que a gente tem confundido isso. Responsabilidade afetiva não é sobre reciprocidade, responsabilidade afetiva não é cobrar que o outro faça aquilo que você queria que ele fizesse, responsabilidade afetiva é sobre sinceridade. É sobre falar o que o outro pode esperar de você e o que ele não pode esperar de você. E aí sabendo o que você pode ou não pode esperar, e aí sabendo o que o outro pode ou não pode esperar, poder decidir se você quer ficar nessa relação ou não relação. Responsabilidade afetiva é deixar as cartas na mesa para que o outro tenha a possibilidade de decidir se ele quer continuar jogando ou não. Responsabilidade afetiva é sobre acordos transparentes e para ter acordos transparentes a gente precisa, muitas vezes, se vulnerabilizar e dizer o que sente. Por isso é tão difícil.
Quando você deixou de ser legal com você? Quando você deixou de levar uma parte da vida só na brincadeira? Quando foi a última vez que você olhou para algo e disse: é o suficiente, é o bastante, foi o melhor que eu consegui e, por isso, estou com o peito tranquilo? Quando foi a última vez que você não se censurou por honrar a sua vontade ou falta de vontade? Qual foi a última vez que você ficou de pijama sem culpa, disse “não” sem peso, falou “não to a fim” sem medo?
Quando foi que você deixou de ser gente boa com você?
Essa é uma história sobre esperança. É um episódio para ouvir quando o coração apertar, quando o medo bater, quando a ansiedade pintar. É um episódio sobre esperança...a minha história com a esperança, mas pode ser a sua também. Boa audição!
No Instagram: @paradarnomeascoisas
Instagram das aulas: @Studio.micheleperes
Amor próprio não é só sobre obedecer a regra de não mandar mais uma mensagem depois da última não respondida. Amor próprio é se perguntar: porque eu insisto em relações em que eu tenho dez por cento de euforia e 90 de dor de cabeça? Aprendi com a minha tia Maria José, a mesma do episódio 20, que o que está fora, está dentro. E vice-versa. Quanto mais eu me esforço para me respeitar, mais parece improvável estar em uma relação, em uma situação, em uma amizade em que o respeito não acontece. Quanto mais eu me trato bem, menos espaço eu tenho para estar ao lado de quem não faz isso. Quanto mais eu me esforço para ser uma boa companhia para mim, mais a presença do outro vira um prazer e não uma necessidade. Quanto mais eu celebro as minhas singularidades, mais as singularidades dos outros me parecem bonitas.
É um exercício difícil, mas eu tenho me esforçado para ser capaz de me amar, mesmo quando eu não sou excelente, mesmo quando eu sou comum, mesmo quando eu sou boba, mesmo quando eu erro no trabalho, mesmo quando eu não dou conta, mesmo quando as pessoas não me aprovam, mesmo quando eu ou a vida me fazem colocar os dois pés na zona do ridículo. É um exercício difícil, mas eu tenho me esforçado para ser capaz de reconhecer que eu não vou ser excelente em coisas que eu to fazendo pela primeira vez, que eu não vou ser incrível em tudo que eu fizer, que eu não vou ser digna de aplausos em todas as minhas decisões e que eu posso fazer coisas ridículas para os outros e, mesmo assim, ser capaz de deixá-la na linha do tempo da minha vida, porque elas são importantes para mim.
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